Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

Quatro reais e vinte e cinco centavos...

Quando se tem cinqüenta e cinco anos, os dias de trabalho parecem durar cada vez mais, e termina-los vivo, já é uma vitória.
Pensava o velho homem, saindo de mais uma das tantas obras que já trabalhara na vida.
Sempre que saía delas, tinha o desejo de não voltar mais. Estava cansado. Cansado de escravizar-se para viver, e viver para escravizar-se. Cansado de construir belas casas, belos prédios, morando em uma pensão no subúrbio da periferia. Estava cansado.
Concordava consigo mesmo, enquanto caminhava com dificuldades rumo a saída daquele dia interminável. Ironia ou não, dois anos desempregado tornou aquele momento um pouco mais especial que o de costume. O simples fato de ter um emprego para o dia seguinte, mesmo que temporário, amenizava a longa jornada para casa.
-Senhor !
Grita um jovem, alto, esguio, caminhando na sua direção
-O senhor é o Sr. .... deixe-me ver...
O jovem tenta não olhar diretamente nos seus olhos, apenas revira papéis, fingindo não saber o nome, na triste esperança de deixar as coisas o mais impessoal possível
-Rubens Medeiros da Silva...?
O velho nada diz, apenas olha com seus olhos opacos, já sem vida. Então o jovem o pega pelo ombro, e vai caminhando para a saída
-Desculpe, o Senhor foi contratado ontem não ?
(sem resposta)
-Bom, desculpa estar dizendo isso só agora, no fim do dia, mas é que aparentemente houve um erro do pessoal de seleção. Isso não é uma decisão minha, espero que compreenda, mas o pessoal está com medo que o Senhor se acidente na obra, devido à sua idade e condição de saúde. Espero que compreenda.
O velho nada dizia. Sua longa experiência, que se tornava um fardo mais pesado a cada dia, já respondia tudo. Ele apenas olhava vaziamente para as pinturas do lado de fora da obra. Lindas paisagens, pessoas bonitas sorrindo, brincando, felizes... e ele, ali, iluminado apenas pela lua, sem nada novamente.
-Senhor, gostaríamos que passasse aqui segunda feira para pegar o dinheiro desses dois dias. Se conseguirmos algo adequável a sua idade, ligaremos.
Apenas acenou com a cabeça, e saiu caminhando vagarosamente. Aos cinqüenta e cinco anos, é difícil acreditar em certas coisas. É difícil acreditar em um lugar como aquele, onde caminhava. Difícil acreditar na vida como a conhecia. Estava velho demais, tão velho que não lembrava ter sido criança um dia. Da "infância", por assim dizer, lembrava apenas que tinha sido violenta, impiedosa e árdua. Mas mesmo assim, nunca desistiu. E agora, estava ali, caminhando cambaleante nas ruas mais nobres de Porto Alegre, reduzido a nada novamente.
Colocou as mãos nos bolsos, vendo o que ainda tinha. Quatro reais e vinte e cinco centavos.
Esse, era todo o inventário da sua vida, aos 55 anos: Uma sacola, duas calças, duas camisas, um casaco e quatro reais, vinte e cinco centavos...
Parou de caminhar e olhou para cima, dando um suspiro pensativo. Havia um posto de gasolina à sua direita. Entrou, comprou o garrafão de vinho mais barato que achou, saiu da loja e sentou-se em um degrau, ao lado de uma lixeira. Tentava juntar forças pra voltar pra casa.
Ficou bebendo a garrafa e observando os jovens que alí estavam, gritando, conversando, cheios de vida e alegria. Olhava com deslumbre, tentando entender aquele mundo tão distante do seu. Quem pudera poder absorver um pouco daquela energia.
Os jovens entravam , saiam, e ele permanecia. Acabou sua garrafa, e ainda pensava no que fazer quando uma caminhonete, grande, imponente, quase o atropelou ao estacionar. Foi por pouco.
Dela desceram dois rapazes e três garotas, muito bonitas, que se puseram a fumar e conversar ao seu lado. Nisso, uma fala:
-Ei, Tati, cuidado com o cara...
-O quê ?
A garota se vira com espanto, e fala baixinho, mas não o suficiente
-Pensei que fosse um saco de lixo
Começaram a rir sem fazer segredo
-É esses peão tarado da obra aqui do lado
Diz a garota
-Odeio velho gagá...
Diz outra...
-Tá se mexendo, tá vivo
Riram novamente.
Com um esforço imenso, ele se levanta. Já estava consciente do seu lugar, então apenas comenta:
-Ser velho, minha filha, não é nenhuma vergonha
-Ahan... olha só, o Busão pra tuas grota não passa aqui não, é pra lá oh ! Vai que daqui a pouco não tem mais ! Todos começam a rir novamente. Ele apenas olhava, não conseguia reconhecer aquela juventude. Os jovens, na sua idade, não eram assim. Então cria coragem, e passa pelo meio deles.
As garotas esquivam-se com prudência e um certo nojo.
Ele, está mais cansado que o de costume. Geralmente, ao tomar alguns goles se reanima, mas dessa vez não era o caso. Sentia falta de ar, enjôo constante e um cansaço fora do comum. Caminhou cambaleante e.após passar uma das garotas, ela fala:
-Tenho medo dessa gente
-Medo ?
Diz o rapaz
-São tudo uns velho tarado
Responde a moça...
-E tu acha que aquilo ainda fode ?
-E vai foder o quê ?
Emenda outro. Todos caem na risada novamente.
Ele já não escuta mais nada, apenas tenta manter-se em pé frente a uma respiração cada vez mais profunda. Começa a tontear, e quando menos espera, um jovem, alto, de chapéu estranho o pega pelo braço.
-O senhor está bem ?
Não consegue responder. O rapaz sem saber direito o que fazer, apenas o leva até um muro baixo, para que pudesse se sentar.
-Sabe, meu jovem.... (longa pausa) ...não queria que pensasse que sou um bêbado.... Não mesmo... eu sou um homem honesto , trabalhador... ...vim de São Borja, conhece ?
-Sei onde fica apenas....
É uma cidade pequena...
E nisso, sem saber bem o porquê, aquele homem começa a contar sua história. Volta e meia interrompia, não querendo alugar o tempo daquele rapaz, que nem conhecia, mas ele escutava com tamanha atenção, que não conseguia se conter. Ficou falando... falando... falando como talvez nunca fizera antes. Ficaram provavelmente uma hora alí, quando outros rapazes surgiram
-Nós estamos indo...
-Vá lá meu jovem ! Já desperdiçou muito tempo comigo ! Eu estou bem...
-Está mesmo ?
-Sim, vá ! É uma pena que não tenha nada para retribuir. Nem ao menos tenho algum talento que possa te ser útil, mas vou pedir que Deus ilumine os teus caminhos....
-Tá ok, tenho que ir, estou de carona... Se quiser chamo uma ambulância
-Não precisa, vou ficar por aqui mesmo. Não queria abusar, mas poderia por obséquio conseguir um cigarro ?
-Tem certeza disso...?
–Tenho...
O menino acende, entrega e vai embora com seus colegas.
O velho, apenas segura o cigarro nos dedos. Fica observando a fumaça ir aos céus, de uma forma que nunca vira antes. Majestosa , parecia dançar com as estrelas. E então, naquela calma noite de 24 de Janeiro de 2003, na esquina da Félix da Cunha com a Cristóvão Colombo, ele se deita, sorri pela última vez, e aceita aquele convite. E assim vai aos céus, sorrindo para o mundo, agora enfim, distante.
Passado um tempo, o rapaz passa por ali novamente e vê os paramédicos, onde antes deixara aquele Senhor.
Temendo a verdade, aproxima e se depara apenas com o corpo, deitado, inerte. Começa a passar mal, quando um dos médicos pergunta:
-Conhece essa pessoa ?
Não consegue responder, apenas sai do local terrivelmente abalado.
Ficou pensando na morte, como ocorrera naquela noite...
Então voltou para casa, e quando chegou, apesar de toda ressaca, não conseguia dormir. Alguma coisa naquilo incomodava...
Resolveu então ligar o micro, e contar a história de mais um brasileiro, que conheceu por apenas duas horas.

Domingo, Janeiro 02, 2005

Adolescência...

Estes dias, ao sair cedo de uma festa, sozinho, estacionei num posto de gasolina afim de matar um pouco de tempo. Não sei porque, mas tenho um apreço especial pela noite Porto Alegrense, então fiquei ali, tomando cerveja e escutando U2, observando os passantes. A grande maioria estava ali só para matar o tempo também, e parte desta maioria, que ainda não tinham idade para saírem na noite, ficava lá no canto, sentados na calçada como se estivessem em casa, tomando uma cerveja e aproveitando a liberdade anônima que a noite lhes oferecia. Todos à observar quem chegava das festas. Alguns rapazes chegavam ainda bêbados, brincando e gozando uns com os outros pelos acontecidos, já as garotas, os acontecidos tentavam esquecer, bebendo água mineral afim de passar a bebedeira. Algumas muito cansadas apenas jogavam-se dentro do carro, comentando de um ou outro garoto e suas peripécias. Tudo, tudo muito igual as demais madrugadas de sexta feira, e eu, naquele contexto me assomava. Então, joguei o cigarro fora, ainda pela metade, e nesse momento, ao meu lado, encosta um corsa branco com três jovens dentro, dois garotos entre 17 e 20 anos e uma garota de 16 anos, bem arrumada, e demasiadamente maquiada para a situação. A garota saiu do carro exclamando "se minha mãe ligar eu to fudid*", isso me chamou a atenção, então permaneci observando. A garota acendeu um Guda Garan, um clássico dos adolescentes que não fumam, mas fumam na tentativa de mascarar a idade, se não a idade, a maturidade, como se isso fosse possível, ainda mais fumando um cigarro doce e fedorento com gosto de chocolate. Enfim, ela acendeu o cigarro do jeito mais pomposo que conseguiu, e começou a falar das suas preocupações, que de momento, eram em como chegar em casa sem levar uma mijada dos pais... Um dejavour ! Meu Deus, se ela pudesse ver a mesma cena pelos meus olhos. Bom, após algumas conversas triviais, o temível telefone toca, e, como previsto, era a sua mãe. O diálogo foi algo merecedor de um Oscar. Vejamos a situação em que eles se encontravam: Bebendo, a salvos, num posto de gasolina no Moinhos de Vento, bairro mais seguro de Porto Alegre, entre amigos. Agora veja a situação descrita:
-Alô ? Mãe ? Bah, olha só, o Ricardo bateu com o carro, aqui na farrapos, e por isso acabei me atrasando, alo ? Minha bateria tá no fim, mas ... Fim da bateria...
Eu, o tal Ricarto e o outro garoto, ficamos nos olhando, pasmos, pensando no que diabos aquela garota havia feito. Comecei a rir e logo os dois garotos foram contagiados. Então, começaram a conversar entre eles, e, pasmem, inventaram uma terceira história, um pouco menos horrível, é verdade, mas ainda assim horrível e foram embora, me deixando apenas em pensamentos. Porque simplesmente não falaram a verdade ? Não, a verdade não poderia ser dita, afinal, eles eram jovens, e por serem jovens estar atrasado significa que obrigatoriamente estariam metidos em encrenca. Isso é enfiado na cabeça de alguns adolescentes pelos pais,que simplesmente não acreditam que ele possa tomar uma decisão correta, e ponderada, de vez enquando... fazendo um verdadeiro interrogatório quando algo sai fora do esperado. Para aquela garota, bater com o carro na Farrapos era mais justificável do que simplesmente dizer, que estava se divertindo e decidiu ficar mais alguns minutos...

Segunda-feira, Dezembro 27, 2004

Quando nos tornamos amigos de quem amamos...

O primeiro ser que descobrimos ser diferente de nós, são as mulheres. Descoberto isso, notamos que entende-las representa um verdadeiro desafio.Geralmente na adolescência, pensamos que o melhor modo de conquistar uma mulher seria entrar no universo delas, compreende-las, ser amigo delas. E no momento que fazemos isso, acabamos nos enredando mais e mais nas suas sutilezas e charmes. Então, o convívio aumenta até que chegamos a duas conclusões, a primeira é que ela é a mulher com quem você quer viver cada segundo da adolescência, viver todas as primeiras experiências. A segunda, é que não importa se você é amigo, inimigo, colega de trabalho ou completo desconhecido. Elas escolhem, sempre escolheram. Com isto na cabeça, notamos que a frase "Desculpe, mas não gosto de você" não seria a pior frase a ser ouvida de uma garota, mas sim, "Desculpe, eu gosto muito de você, muito mesmo, mas como amigo".Das pessoas que se identificam neste contexto, existem apenas dois tipos: as que já ouviram essa frase, e as que temeram tanto ela, que nunca chegaram a se declarar.Mas o que essa frase realmente quer dizer ? Simples.Você é simpático, meigo, prestativo, compreensível ao ponto dela desabafar todos os seus problemas. Fazer de você um confidente. Mulheres necessitam disso. Porém, leia os meus lábios agora: Você não passa disso. Você na cabeça dela, é como um irmão. Sua sensualidade não é notada, suas qualidades são filtradas.Instigante, triste, mas é a realidade. E como já não bastasse estarmos com o coração em frangalhos e confuso, somos obrigados a ver ela sair com um cara, que só no jeito de olhar já revela o fugoz desejo carnal. Nada mais que isso. E para consegui-lo, será capaz de tudo, até mesmo de passar por cima dos seus sentimentos. E ai, ficamos perplexos vendo a incapacidade dela de ver isso. Esta ali, estampado, gritante. Mas não. É mais fácil ela ver naquele cara um romance puro e verdadeiro do que ver em seus gestos diários que existe um cara legal ali. Um cara cuja a paixão supera a razão. A razão de se torturar vendo ela voltar novamente em pedaços, chorar em seu ombro, falando o que já era previsto e óbvio.Então para esquecer o ocorrido, vocês vão ao cinema, passam horas conversando em parques e praças, vendo filmes em casa e falando bobagens até as cinco da manha. E nisso, aos poucos, ela vai arruinando a sua vida. Fazendo com você o mesmo que fizeram com ela, porém, às avessas. Só que muito pior.Se ela faz isso com amigos, que fará com inimigos... Mas você continua, algo te diz que um dia ela irá ver você com outros olhos. Porém, a cada dia que passa, parece mais difícil desvencilhar-se da signa de amigo. Você começa a andar com ela puramente para descartar os pretendentes. Até que você se da conta que não existem atos hollywodianos ou flores suficientes neste mundo capaz de faze-la enxergar a realidade por sí só. Isso para mim se tornou muito evidente, em um dia, ao qual ela pediu para virar-me afim de trocar de roupa. Simplesmente abri a porta para me retirar. Ela ficou sem entender, e perguntou o porque desta atitude, pois ela confiava muito em mim. Então falei que antes de ser amigo, sim, antes de tudo isso, eu sou homem, tenho desejos, e a vejo como uma mulher, muito além de amiga. O espanto dela diante dessa reação e o que se sucedeu me comprovou que as mulheres não mudam sua concepção sozinhas. É necessário um choque. Pois para ela, o que procura estará sempre em desconhecidos de personalidade duvidavel. Elas não são capazes de compreender que você é simpático por ser naturalmente assim. E não por ser feio, pobre ou qualquer outra coisa. E pessoas que não são assim hoje, não irão de ser nunca. E nisso você fica pensando, porque o outro sempre tem mais chances ?

Sexta-feira, Dezembro 24, 2004

Momento epifania...

Penso, se o homem, criador de tantas coisas, não teria criado o Diabo à sua imagem e semelhança
Penso, como posso, amar um Deus que não conheço
Penso, como posso, amar a humanidade da forma que à conheço
Penso, como pode, existir o caos na onisciência divina do tempo
Penso, como pode, não existir uma única, uma sequer, tele-entrega aberta hoje ! *&¨%$#@

Vai fazer medicina ?

Sabe, assim como muitas pessoas, sempre tive uma idéia meio errada dos médicos. Eu, por exemplo, sempre observei que a maioria deles, tem a mania de só relacionar-se com outros médicos. Isso somado ao fato de que eles são de difícil acesso, passa uma certa impressão de serem "anti-sociais".
Bom... Estes dias, ao frequentar a casa de uma amiga, cuja o pai e a mãe são médicos, notei que o pai dela, não fugia à regra. Das visitas quase diárias que fazia a casa dela, para assistir Sexy and the City e outras bobeiras, o máximo que consegui com o pai dela (quando o via), era algumas conversas triviais, que acabavam rápido devido as suas respostas que eram sempre diretas e curtas.
Quando perguntei uma vez a ela sobre isso, ela apenas me respondeu que ele era um "Workalcholic", ou seja, viciado em trabalho. De fato, isso era inegável, pois quase sempre chegava depois da meia noite, acenava, ia pra cama, e acordava para novo plantão às 9hrs da manha.
Fiquei com isso na cabeça, mas logo descartava quando começávamos a conversar de novo. Enfim, um certo dia, ao irmos no seu escritório pegar um DVD, notei que em cima da mesa havia diversos rabiscos e desenhos, apesar da quantidade, estava tudo perfeitamente organizado. Comecei a olhar, e vi alguns papéis onde diziam os exames, tais como "eletroneuromiografia de membros superiores", "eletroencéfaloneuromiografia" disso, daquilo... Espantando, perguntei como ele conseguia pronunciar tantos nomes bizarros, ao qual ela me respondeu:
-Isso não é nada, dá uma olhada nisso aqui...
Pegou um livro grande, com uns mil nomes de remédios e dosagens.
-Tu consegue acreditar que ele sabe quase tudo isso daqui de cor ? Até as dosagens e efeitos colaterais. Meu pai é muito Nerd !
Não quis comentar, mas achei meio improvável, era muita coisa, quase humanamente impossivel, pois os nomes, eram cada um mais impronunciavel que outro. Pegamos o DVD e fomos olhar, lá pela meia noite, ele chegou, pediu para ela prender os cachorros e foi para o escritório. Com a árdua tarefa, ao qual eu não podia ajudar, ela me pediu para entregar alguns documentos que chegaram para ele, lá no escritório. Lá fui eu. Chegando, vi ele sentado, olhando alguns papéis, apenas com uma luz fraca iluminando a bonita mesa de mogno.
Aquela cena pra mim era incomoda, pois parecia que ele, ao chegar em casa, continuava a ser um cirurgão médico muito respeitado, e não apenas mais um pai de família, que chegou em casa do trabalho. Relutante, me aproximei e entreguei os papéis. Ele levantou os olhos, sorriu (o que eu nunca iria esperar), e começou a me perguntar algumas coisas triviais, sobre o que fazia, se estudava, entre outras coisas. Fiquei com medo que ele perguntasse qual o meu envolvimento com sua filha, mas não ocorreu. Eu citei do meu possível interesse em seguir algo na medicina, mas já tinha sido desmotivado só de olhar o número de remédios, exames, e outras coisas que eu não conseguia nem pronunciar. Para exemplificar melhor, peguei o livro de remédios, e citei um, ao acaso. Ele corrigiu a pronúncia, e comentou que era um anti-depressivo acima de 160mg e anti-inflamatório abaixo, com uso para problemas cardíacos.
Pasmei... Ele sorriu novamente, e disse que isso eu ia pegar facilmente com o tempo. Patavinas, nem em duzentos anos eu conseguiria aquilo. Então não contive a pergunta
-Vocês são obrigados a decorar tudo isso daqui ?
-Olha, ninguém é obrigado, mas você acaba decorando naturalmente...
Me respondeu, de forma serena e modesta.
Continuei folheando, e vi um nome muito, mas muito absurdo
-Meu Deus... pra que serve isso ?
Para digitar aqui, eu teria que trazer o livro, e digitar letra por letra.
-Ah, isso é usado para exames de policontraste (sei lá o que, não lembro agora) do vaso da trompa eustaquiana da síndrome...(não lembro também, mas era um nome esdrúchulo demais, enfim, viajei total na resposta)
Fiquei muito admirado. Aquele homem me fazia sentir um... nada.
Resolvi me retirar e deixar aos seus afazeres, quando ele me ofereceu uma bala, ao qual consumia incessantemente. Fez algumas brincadeiras e a conversa prosseguiu, pela primeira vez na vida, de forma normal. Não me contive em perguntar algo, que eu acho todos já devem ter perguntado. Porque médicos mantém a letra horrível nas receitas ?
Ele pegou as pilhas de anotações e exames, e respondeu calmamente, como sempre.
-É que passamos aproximadamente quatro anos estudando todo dia, quase 12 horas por dia. E quando não estamos estudando, estamos fazendo residência, e quando acaba a residência, temos ainda de fazer um pós. Ou seja, se você for se especializar em algo, como eu, demora uns 10 anos, digamos. Dez anos tendo de escrever tudo o mais rápido possível torna nossa letra assim. E o problema não é só isso. Hospital é a coisa mais burocrática do mundo. Para fazer um simples procedimento, preechemos aproximadamente mais de dez folhas. Um para o plano de saúde, outro pra Santa Casa, outro para o paciente, outro para os próximos médicos, e assim vai, se formos escrever pacientemente tudo, levaríamos o dobro do tempo, pois passamos mais tempo escrevendo do que fazendo uma cirurgia, ou procedimento. Não tem como evitar...
Não sei dizer o porquê, mas pela primeira vez, compreendi perfeitamente. Realmente, para um médico competente como ele, não tem como...
Começamos a conversar sobre outras coisas, como a mania de médicos só terem nas suas amizades, outros médicos, e ele me explicou de forma breve.
-Isso acaba se tornando uma consequência da residência. Por exemplo, quando eu fiz residência no hospital tal tal (nao lembro o nome, mas só pega acidente de trânsito, na estrada pra praia), nunca sabíamos o que íamos pegar. Uma vez, peguei uma noiva, que se acidentou de moto com o namorado. O jovem nada sofreu, mas a mulher, já chegou nas minhas mãos com parada cardíaca, lesões nos rins, nossa, terrível. Fiz de tudo, tudo mesmo, mas ela veio a falecer. Nisso, começa a chegar a família da moça, que iria se casar daqui dois dias, e era esquisito dar a notícia, você falava e as pessoas ficavam estáticas, nos olhando, sem acreditar. É muito triste, e nesse momento, você cria um vínculo muito forte com quem passou por toda situação com você. E como passamos mais tempo na residência que fora dela, enfrentando situações deste tipo, é dificel fazer amizades que não estejam neste meio. Eu sempre tento, mas a maioria se torna assim.
Ficamos conversando, e ele contou de outros casos, casos com crianças,(ele pegou algumas fotos de uma criança que chegou com traumatismo craniano e com uma das pernas semi amputada, depois me mostrou a criança hoje, perfeita, só uma cicatriz na perna, grande é verdade, mas normal), porém as que sobreviviam, eram casos raros, a maioria já chegava com algum amputamento do acidente. Só de escutar e olhar, eu já ficava com um nó na garganta, imagina ter vivido. Ele continuou.
-E agora, nós temos médicos se formando cada vez mais cedo. Tem rapazes que se formam com vinte, vinte e um anos de idade, isso é muito cedo...
Balançou a cabeça negativamente...
-Acaba faltando experiência de vida. Lidamos com vidas, e estas situações necessitam de uma maturidade psicológica muito grande, que eu acho difícil de se ter com tão pouca idade. Ainda mais que nesse ramo dedicamos todo o tempo de nossas vidas à salvar outras vidas, e com isso acaba faltando convívio.
Não soube direito o que dizer, mas era verdade. As pessoas da medicina, geralmente ainda na faculdade já demonstram esse comportamento. Enfim, ainda conversamos mais alguma coisa, quando a filha dele chegou à porta. Estava com o Ferret na mão e foi abraça-lo. Decidi mante-los em tal momento, pois era de fato, raro. Sai daquela casa, com um novo conceito sobre médicos...

Quinta-feira, Dezembro 23, 2004

Meu dia inútil de hoje... (texto 21)

Se tem uma coisa que eu omito das pessoas, é a que eu trabalho com informática. Não por medo de ser tachado de nerd ou algo do gênero, mas pelo simples fato de que, sempre, em algum lugar, alguém sempre necessita de uma ajuda. Já não foi uma nem duas vezes, que eu cheguei em casa exausto, e alguém, um vizinho, um tio, e até mesmo um completo desconhecido, vem pedir meu auxílio. Sempre ajudo no que posso, pois sinceramente, me considero tão medíocre na informática como no que escrevo. Por isso, nunca cobrei nada. Mas sempre me retribuem os favores, de alguma forma, como hoje.
Eu cheguei em casa, e antes de entrar na porta, meu vizinho veio, esbaforindo um cigarro e falando freneticamente no celular. Entre as falas ele ainda conseguia achar uma pausa para falar comigo.
-Olha só, tenho uma boa pra nós... O QUÊ ? ISSO, SE PEGAR DEZ FILMES É VINTE REAIS, ISSO ! Eu vou fazer uma pescaria nas ilhas, e tu vai vir comigo. ENTREGAR AONDE ? AH.. CINCO REAIS DE TELE ! Fica por minha conta.
Fiquei olhando a cena. Tentava ainda entender onde eu me encaixava no contexto de mar, barco, e pescaria. Seguiu-se mais alguns gritos pelos corredores, e ele desligou. Matou o cigarro e pediu para entrar no apartamento dele, para conversarmos. Entrei e fomos para o quarto, onde ele me mostrava fotos e mapas do Guaíba, encenando uma atmosfera muito promissora, porém, isso durou até ele começar a falar dos trâmites necessários.
-Olha só, tu só tem o Uno ?
-Sim, porquê ?
-Eu não tenho reboque pro barco. Será que dá pra botar o barco em cima do Uno ?
-O quê ? Mas que tamanho é esse barco ?
-Ele tem seis metros, da uma olhada nas fotos.
Pego a foto.
-Cara, seis metros só um carro grande. E muito grande...
-Pois é. Já sei, perai.
Pega o telefone, dá uma escarrada à distância na lixeira, e acende outro cigarro. Quando atendem do outro lado ele se levanta, vai pra janela esbaforindo fumaça e começa a gritar de novo.
-OI ! E AI ? SOU EU. ME DIZ UMA COISA, TU AINDA TEM AQUELA CARAVAN ? É ? TÁ ALIENADA ? MAS TU TÁ COM ELA ?
E prossegue. Na conversa começo a entender porquê um dia ele fora o melhor vendedor de seguros do Rio Grande do Sul. Com um papo manso ele convenceu o cara, a emprestar uma Caravan, alienada, sem documentos, sem IPVA pago desde noventa e oito, e mais de mil reais em multa, à fazer uma viagem com um barco de seis metros amarrado em cima.
Fiquei imaginando como ele iria passar pela Polícia Rodoviária Federal, quando ele desligou.
-Cara, arrumei um carro pra nós buscarmos o barco. Vamos lá !
-No cara ?
-Não, antes vou no Renato, nosso vizinho.
-Ele vai ir junto na pescaria ?
-Não não, ele só vai me emprestar um alicate de cortar corrente.
-Ué ? Pra quê ?
-Os filhas das putas da marina acorrentaram o meu barco.
-Por quê ?
-Ahh, era o meu tio que pagava a marina, só que quando ele morreu, eu não paguei e agora eles estão me cobrando 12 meses de mensalidade atrasadas. Só que isso da mais de mil reais e eles não querem negociar. Mas eles vão se dar mal comigo, eu vou tirar meu barco de lá hoje nem que seja a força.
Então ele se levanta, bota o telefone no lugar, e tira de cima do armário uma pistola 380. Olha pra mim e comenta.
-Só por garantia. Não vou usar
-Sei... Tipo... Se importa se eu não for junto ? É que não sou chegado à confusões
-Nah, nem te grila, não vai dar confusão nenhuma. Isso eu levo só pra último caso.
-Sei. Vamos fazer assim, eu fico organizando as coisas aqui, rede, bateria, e essas coisas necessárias, pode ser ?
-Mas é que eu preciso de carona pra ir lá.
-Toma, pega a chave ! Tipo, pra ligar, você tem que empurrar com força a chave para dentro do miolo, se não a chave não gira, e depois, cuida com a embreagem, tá no talo, então tem que engatar meio sincronizado as marchas. A segunda esquece, não entra de jeito nenhum.
-Tem alarme ?
-E precisa ? Ninguém consegue dirigir aquela lata velha.
-Tá, vou lá !
Toca o celular, ele atende, mais uma venda de CD´s piratas. Então ele sai gritando porta à fora dando preços e demais.
Fiquei olhando o restante das fotos e brincando com a cadelinha dele, que era uma mistura de vira lata com Fox. Um dos cachorros mais simpáticos que já conheci. Comecei a mexer nas coisas que ele havia separado, e notei que tinha um volante. Fiquei pensando que raios um volante fazia junto do material de pesca. Quando tirei, entendi. Ele havia improvisado um volante para por no barco, para não ter que ficar lá atrás, junto do motor. Bem rústico é verdade, mas funcional. Ou ao menos, parecia.
Deu algumas horas e toca o interfone. Fui atender, era ele.
-Cara, eu esqueci a chave da maleta do barco, me traz ela, tá em cima da mesa dos computadores.
Procurei e desci. Quando cheguei lá embaixo, vi a tal "Caravan". Incrível pensar que aquilo ainda andava. Estava sem os dois pára-choques, os pneus já estavam na câmara, sem retrovisor, sem o vidro direito, e todas sinaleiras quebradas. A pintura sugeria que ela tinha sido azul um dia. Dentro, meio quilo de areia de praia.
-Isso ainda anda ?
-O quê ? Tu nem imagina o motor que isso tem ! Anda pra cacete ! Olha só o que eu consegui !
Pegou um alicate que devia ter um metro de tamanho e uns dez quilos. Deu algumas risadas que sempre parecem forçadas, e se mandam pra buscar o barco.
-Daqui a meia hora estamos de volta !
-Falow
Fiquei ali, na rua. Era um domingo de céu claro, bonito. Devia ser umas onze horas. Para quem trabalhara a noite inteira, até que eu estava de bem com sol. Geralmente, eu não o suporto.
Fumei um cigarro, ao som dos pássaros, e quase duas horas depois, vejo algo estranho aproximar-se no horizonte. Eram eles. O carro parecia vir de lado, "carangueijando", com um dos lados quase encostando no chão, devido excesso de peso. O desleixo na maneira de por o barco em cima do carro, pendendo para um dos lados, sugeria que tinham o feito às pressas. Sugeria não, era até meio óbvio. De longe eu já conseguia ouvir as risadas.
Estacionaram na frente do prédio, e começamos a colocar as coisas dentro do carro.
Quando terminamos de colocar o motor, as redes, oitenta, pasme, oitenta litros de gasolina, a Caravan foi ao chão. Parecia carro de magal. Ficamos então na volta, pensando. Ainda tinha o liquinho (um butijão de gás pequeno), e as armas de caça. Mas não sobrara espaço. Então ele foi enfático.
-Seguinte, vai com o liquinho no colo, e as armas eu vou enrolar num saco e jogar em cima do barco.
A idéia não me agradou muito, mas não tinha outra solução.
Entramos no carro e saímos. De dentro do carro eu via a rabeta do barco ir uns três metros à frente, era realmente estranho, mas pelo menos, tampava-me do sol. Devia ser umas três horas da tarde. Pensei se não seria meio arriscado sair em plena luz do dia daquele jeito. Mas eu estava de mero passageiro alí. Ele terminou de enrolar um baseado, acendeu e quando fez a curva, parecia natal. Nunca vi tanta luz vermelha piscando. Era uma blitz da Polícia Rodoviária Federal, na Av. Farrapos, a três quadras de casa. Devido às confusões dos puteiros que ali existem, na noite anterior, eles estavam parando todo mundo, à procura de dois sujeitos. Sei que meu vizinho, ao ver, quase engoliu o baseado. Ele pôs o carro em cima da calçada e, enquanto o guarda caminhava na nossa direção, ele dizia: "Fica frio, fica frio que eu me entendo com eles". Mas sinceramente, estando num carro alienado, sem documentos, ele com a carteira vencida, com armas, redes de pescas ilegais, oitenta litros de gasolina, e eu abraçado num botijão de gás... É hoje que ele dá a bunda.
O guarda se aproximou, olhou para os bancos de tráz viu os oitenta litros de gasolina, olhou pra mim, e comentou:
-Vocês vão explodir um prédio ?
Podia ser engraçado, mas não conseguimos rir. Então meu vizinho desceu do carro, aos gritos, como sempre.
-E ai ? Tudo bom chefe ?
Falou isso como se fosse amigos de longa data.
-Olha só, nós saímos dalí, daquele prédio, nós estamos indo pescar em Itapuã, tu conhece ?
-Sei...
Ele abraçou o guarda, e foi conversando e o levando, para longe do carro. Eu escutava o que ele falava mesmo estando longe. Fiquei pensando, se a lábia dele fizer a gente passar por essa blitz, ele merece o prêmio Nobel !
Passou-se alguns minutos, e vieram os dois, ele, como sempre, sorrindo. Entrou abruptamente no carro, e um dos guardas liberou os cones para retorno. Impossível, não acreditava no que os meus olhos viam !
-Que tu fez ?
-Nada, o cara também é pescador, ele só me liberou para voltarmos pra casa.
-Que bom, acho melhor mesmo desistir dessa idéia. Vou te dizer, nós tivemos é muita sorte!
-Nada que uma boa conversa não resolva, agora sorri e faz cara de paisagem
Acenamos agradecidos e fomos embora
-Olha, não duvido mais nada do poder da tua conversa
-Pssi, já me livrei de situação pior com o Chevettinho
-Pior que isso ? É possível ?
Então ele rumou numa rua alternativa, e foi me contando de outras peripécias. Juro, esse cara poderia escrever um livro ! Andamos mais um tempo, e ele parou na frente de um prédio, meio pombal.
-Um amigo meu vai junto.
Era um amigo dele, do tempo em que eles vendiam seguros de vida. O cara ainda continuava na função. Logo que ele entrou, fomos embora para o cais. Eu fiquei espremido no banco de trás, apenas ouvindo as conversas de canto. Em geral eram lembranças das vendas, que passavam batido pelo meus ouvidos, até que uma pergunta do amigo dele me chamou a atenção.
-Cara, te lembra do Wando ?
-Sim, que tem ?
-To precisando de um gerente pato pra ele
-Pra quê ?
-Ele tem vários terrenos grandes lá pelos lados do Acre. Coisa grande mesmo. Preciso de um gerente pato pra aprovar um empréstimo,e ele se livrar dos terrenos.
Comecei a pensar e entendi. O cara tinha muitos terrenos lá, mas, ele nunca iria achar alguém com dinheiro e disposto a comprar terrenos no meio do nada. Então, era mais fácil ele fingir estar abrindo um negócio, pegar um empréstimo de milhões, colocando os terrenos como garantia do pagamento, e sumir, deixando os terrenos ir a leilão.
-Cara, eu sei um gerente que vai cair nessa. O cara é muito ingênuo, deixa comigo !
E prosseguiram a conversa, trocando idéias de como poderia fazer a maracutaia de forma a ninguém perceber. A conversa se estendeu até o cais, onde interromperam o assunto por momento.
A muito custo, colocamos o barco na água, e após algumas horas arrumando tudo, partimos. Confesso que achei legal a experiência, nunca tinha andado de barco, só veleiro. O barquinho andava realmente muito mais rápido do que eu esperava, para um motor vinte e cinco. Ainda admirava toda a cena, quando o amigo dele pegou uma caixa enorme de isopor.
-Precisamos de cerveja !
-Vamos pro bar flutuante !
-O quê ?
A ventania e o barulho do motor dificultavam a comunicação
-VAMOS PRO BAR FLUTUANTE !
-Ahhh, OK !
O bar flutuante, é um bar, pasme, flutuante ! Fica em frente a usina do gasômetro, que é também, ironicamente, onde desemboca todo esgoto de Porto Alegre. Um Tietê gaúcho.
Chegamos lá, e eu, como ainda não tinha gasto nada, resolvi pagar a cervejada. Peguei o isopor e subi no bar, enchi de cervejas e gelo, e voltei. O enorme peso do isopor dificultava muito meus movimentos entre as mesas, que eu nunca vira tão lotado. Então cheguei com calma na beira, e olhei pro barquinho, que sacudia bastante na maré. Ao pisar no barco, ele se deslocou para fora, e eu comecei a abrir as pernas, fazendo um compasso. Comecei a tremer devido ao peso do isopor, quando meu vizinho se deu conta de puxar o barco de volta, mas era tarde demais...
Queria Deus um dia esquecer esse momento. Cai com isopor e tudo dentro da "água". Muito, mas muito rapidamente, os dois salvaram o isopor. E eu, confesso, não lembro de muita coisa. Apenas de ter atolado os pés numa lama gosmenta. Sim, a merda de toda Porto Alegre acumulada fazia dar pé ali.
Ao ressurgir da água, vi centenas de pessoas rindo. Algumas mulheres ainda se preocupavam, mas de resto, apenas riam. Meu vizinho, que ria até mais do que eles, tentava me puxar de volta. Me escorei no barco, e após me esfolar e cortar um dos pés, voltei. Olhei pra mim mesmo, do joelho para baixo, estava com uma gosma que variava do verde gosmento ao amarelo diarréia. Era muito, muito, MUITO nojento. Os dois me evitavam enquanto eu colocava os pés de volta na "água" para limpa-los. Não consegui muita coisa, era o mesmo que limpar a bunda com saco plástico, só espalhava. Com as pessoas ainda rindo, pedi para que fossemos embora, antes que minha auto-estima atingisse o ápice. Eles riram e nós fomos. Eles ainda acenavam e mandavam beijos para as garotas, e eu, apenas mantinha o olhar fixo no horizonte. Depois dessa, fiquei impegável à qualquer ser num raio de dez kilometros.
Chegamos às ilhas, e lá ficamos dando voltas, o que foi divertido. Achamos lugares bem diferentes. Lembro que em um determinado momento, achamos bem no meio daquele imenso rio, um "baxil", que fazia dar pé. E dessa vez, não era merda. Era um tanto quanto estranho ficar de pé no meio de um rio daquele tamanho, mal enxergávamos a margem. Mijamos, tiramos algumas fotos e fomos embora.
Após algumas horas andando, o rio foi se estreitando, e ele resolveu por em prática a sua engenhoca de Prof. Pardal. Sim, aquela, do volante.
Ficamos a deriva, boiando, enquanto ele revirava as sacolas, até que achou. Retirou e "acoplou" na parte frontal do barco. Nesse momento, como todo projeto, houve a primeira falha. Esquecera dos fios de ligação volante/motor. Inconformado, ficou alguns minutos agourando sua má sorte, até que ligou o motor e rumou para uma dessas casas de beira de rio. Casa não, casebre, era praticamente quatro pedaços de fórmica empilhados. Então ele desceu, e se foi. Passado alguns minutos, voltou com uma corda de varal gitantesca. No momento que eu vi, exclamei em voz alta "Isso não vai dar certo..." O seu amigo, agora meu amigo também, me olhou, e levantou a cerveja. Para ele, tudo era festa.
Ficamos parado observando enquanto meu vizinho passava aquela corda de varal pelas roldanas. Firmou, mexeu o volante para testar, perfeito ! Nem eu acreditara, sua engenhoca estava funcionando. Levado pela alegria do momento, ligou o motor e começou a andar no rio, à toda máquina, fazendo tantos zigue zagues que eu quase caí do barco umas três vezes. A muito custo, com a ventania, acendi um cigarro. Estava feliz novamente. Esquecera o monte de merda que eu havia virado a pouco tempo. Fiz um aceno de comemoração, me voltei para frente, e comecei a emborcar as cervejas uma atrás da outra.
Passado um tempo, estávamos todos meio "altos". Todos não, eu estava virado num gambá.
A partir daí, as cenas passavam pelos meus olhos numa espécie de "Slow motion". Via apenas alguns poucos quadros por segundo. Aquela cerveja toda, frente à um sol de rachar, agravara o efeito do álcool. Lembro que tudo era festa. Aquele barco, a toda velocidade por aqueles rios estreitos, era do caralho. Foi quando apareceu um tronco de madeira enorme boiando à nossa frente. Meu vizinho, desviou do tronco, mas ao voltar, a corda de varal se soltou e nós entramos ilha adentro, a 60km/h, deixando um rastro de poeira.
Devido a bebedeira, eu não saquei o que aconteceu. Senti apenas um forte solavanco, e de repente, só havia árvores e galhos à minha volta. Olhei pra baixo, terra firme. Eu não conseguia entender. Olhei mais na volta, havia um pessoal, nativo da ilha, que me nos olhava com espanto. Olhei pra trás, meu vizinho já havia decido, esclamando alguns palavrões. Então abri mais uma cerveja, sentei no chão e ali fiquei.
Nesse momento tínhamos virado atração para os habitantes locais. Com a ajuda deles, o barco foi posto de volta na água. Como entrei no barco, não lembro. Acho que apenas me atiraram.lá dentro. A partir dai, as coisas ficaram meio embaçadas.
Lembro de ter ficado em terra firme, enquanto eles caçavam, punham as redes, e tudo mais.
Fiquei catando coisas que achava na beira da ilha. Em geral lixo da cidade grande, como latas de refrigerantes, das antigas. Daquelas que tinham um anel grande, de 1985, por aí... Vi também caixas de remédios, e outras coisas bizarras, como um rádio antigo, à valvula, com as teclas escritas em alemão. Fiquei procurando mais lixo quando eles voltaram. Haviam terminado de por as redes na água.
Então um deles começou a improvisar uma churrasqueira, enquanto o outro, cortava as iscas para ser serem usadas na pesca. Em geral minhocas.
Ao terminar de corta-las, no mesmo embalo, pegou os pães e seguiu cortando. Engasguei ao falar.
-Que tu tá fazendo ?
-Cortando os "pão" pra por a lingüiça dentro
-Sem lavar ? Tem uma gosma preta de minhoca na faca
-Minhoca é um bicho limpo, mas tu quer eu lavo
Se levantou e rumou para o rio.
A margem, não sei porquê, tinha uma espuma branca e densa. Falei novamente.
-Pssiu, deixa. Eu pego o ultimo pão
Ele me deu os ombros, fazendo pouco caso e continuou
Em poucos minutos as linguiças estavam estalando no fogo.
Seguiu-se algumas conversas triviais, até elas ficarem prontas. Eles comeram, e eu, confesso, tentei. Acabei comendo somente a lingüiça, pura.
-Vamos lá !
Exclamou um deles.
-Vamos pescar, já deixei tudo pronto.
Entramos no barco e fomos rio acima, novamente. Quando o barco parou, lançaram-se os anzóis na água, e ficamos à espera, de alguma coisa.
Confesso que ficar parado, segurando uma vara de pescar, não estava me agradando muito. Comecei a me coçar, fumar um cigarro, mexer nas coisas atrás de alguma cerveja remanescente, até ser repreendido.
-O bicho grilo, te aquieta aí ! hehehe
Sentei novamente. Comecei a fitar o horizonte entediado, até achar algo estranho. Parecia um monte, ou morro, sei lá. Era preto, e parecia se mexer. Fiquei alguns minutos imaginando que diabos era aquilo até perguntar.
-Oh, pssiu, o que é aquela coisa preta ?
Eles olharam. Meu vizinho ficou pensativo alguns minutos, até afirmar.
-Acho que é um mirante. É, é sim.
-Preto ?
-Não, aquilo são aves. Deve ser uma porção delas
Pegou a pistola e deu um tiro pra cima. De fato, eram aves. Elas levantaram um vôo rasante pela água, nos contornando numa espécie de círculo e acabaram voltando, pousando do mesmo jeito que estavam antes. Não havia jeito, nada se modificava. Tudo ali inspirava o tédio.
Pescamos dois ou três peixes, não lembro, quando o sol começou a se por. Resolvemos voltar, mas antes, pedi para passar no mirante, tirar uma foto.
Ao chegar, às aves levantaram vôo. Dessa vez, não voltaram.
Subi então pelas escadas, seguido do meu vizinho, quando cheguei lá em cima, levado pela emoção da vista, pulei da escada para o mirante. Meus pés atolaram numa gosma branca. Adivinhe... Merda novamente, só que de pássaro. Toneladas de merda. Esclamei um put* que pariu. Meu vizinho, ainda subindo, perguntou o que era
-Nada não, pode vir !
Dei um jeito de ir para a lateral, evitando tudo aquilo. Pelo menos, não fedia. Quando ele subiu, pareceu-me um Dejavour.
-Bah, olha só que vis...
Espatifou os dois pés nas titicas de pássaro.
-PUT* QUE PARIU
-Shhhhhhhhhhhhhhhh !
Interrompi. Fiz um sinal pra baixo.
-Te assenta ai do lado, deixa ele vir.
Não se contendo, gritou lá pra baixo.
-Cara, sobe aqui ! Têm uma vista do caralho !
Ele começou a subir. Meu vizinho me olhou, tentando desesperadamente conter o riso.
Ele subiu, olhou pro horizonte.
-Bah, do caralho, até vou tirar uma foto de vocês dois aí.
-Sobe aqui primeiro !
Nesse momento, nossos sorrisos iam até as orelhas. O sorriso mais sínico que alguém poderia ter, mas ele não desconfiou e pulou.
Quase caí lá de cima de tanto rir. Ele nos xingou e ficamos observando o por do sol. Isso realmente foi legal, valeu a pena.
Começou a ventar forte, provocando marolas na água. Tínhamos de ir, sem dúvida.
Olhei pra baixo, o vento começava a levar o barco. Comentei isso e comecei a descer as escadas.
Meu vizinho, aventureiro como sempre, resolveu pular lá de cima.
-Larga de ser fresco, te atira !
-Eu não, sei lá como isso daqui foi construído, pode ter pontas de ferro ou estrutura lá embaixo.
Não terminei de falar e lá veio ele, de ponta. Pensei, se ele cair numa boa, me atiro também.
A cena que vi, é difícil de explicar. Ele caiu, sumiu na água, e de repente suas pernas surgiram, passando pela cabeça. Muito muito bizarro. Gritei lá de cima.
-TU TÁ BEM ?
Com metade do corpo fora d´água, tentava puxar o ar frenéticamente.
Desci correndo, quando pulei na água, entendi. Devia ter no máximo um metro de profundidade.
-Tu tá bem ?
Não respondeu. Apenas fez um sinal com a mão, para aguardar. Respirava ofegante.
Punha as mãos nas costas constantemente. Depois de um minuto mais ou menos, ele comentou.
-Cara... (longa pausa) ...acho que estalei todos os ossos possíveis...
E tocava com os dedos na bochecha, vermelha. Tinha dado uma joelhada na própria cara.
-...até o cú eu acho.
Emendou.
-Ele está bem !
Gritei para o nosso amigo, que ainda descia com cautela as escadas. Então ele não se aguentou.
-Depois dessa, acho que tu consegue chupar o próprio pau
Segurei o riso, achei impróprio, então só comentei
-Tudo tem um lado positivo, tem gente que paga pra estalar a coluna, tu conseguiu de graça.
Entramos no barco. Meu vizinho ainda estava meio zonzo da queda, cheio de areia na cabeça. Por isso, eu mesmo fui guiando o barco. Chegamos na ilha e eles foram buscar as redes, enquanto eu, arrumava tudo, para voltarmos.
Fiquei arrumando e lembrei do rádio antigo. Vou levar de recordação.
Voltei lá, o rádio estava meio embrenhado no mato. Tirei umas folhas para abrir passagem, quando vi, uma aranha. Toda colorida, e muito, muito grande. Maior que um prato. Aranha sabida por sinal, fez uma teia entre todos os galhos, não escapou um.
Não sei porquê, passou a vontade de levar o rádio.
Voltei e vi eles se aproximando, com a rede e dois bichos estranhos. Era um cascudo, disse ele.
Todo aquele trabalho para pegar dois cascudos.
Entrei no barco e enquanto isso, eles atiravam as coisas pra dentro. Comecei a sentir um forte cheiro de merda outra vez. Não aguentei.
-Não consigo me livrar desse cheiro.
-Ah, não te preocupa, é da rede.
-Como assim ?
-Veio um cagalhão junto com os cascudos.
Olhei pra rede incrédulo. De fato, ela estava com uma mancha suspeita.
-Mas aqui ? Estamos longe pra cacete da costa.
-Eu sei, ele ainda achou que era uma manga podre, e pegou na mão !
Rimos à beça !
-Chega por hoje, vamos pra casa !
Voltamos pro cais. Lá chegando ainda enfrentamos problemas. A bateria da Caravan tinha se ido.
Demoramos pra resolver tudo. Cheguei em casa podre de cansado. Pode-se dizer que foi um domingo e tanto.

Quarta-feira, Dezembro 22, 2004

O motivo de nós, brasileiros, acessarmos tanto à rede mundial...

Gente, já faz um tempo que trabalho na internet (desde 1996, num provedor chamado HotNet), e de quando em quando nos deparamos com empresas que surgem de maneira enigmática. Um belo exemplo disso foram as empresas que ofereciam internet gratuita, que apareceram repentinamente por volta de 1998.
Nessa época, houve uma verdadeira histeria de investimentos estrangeiros, e de repente, a moda do momento era oferecer acesso gratuito. Em semanas tudo que se via na televisão era Free pra cá, Free pra lá, e todos oferecendo a mesma coisa, internet grátis.
Em geral as pessoas assistiam a isso com indiferença, mas nós (antiga Conex), que prestávamos o mesmo serviço a um custo de R$ 50,00 reais mensais, ficávamos pasmos, pois era difícil entender essa reviravolta.
Começamos a procurar por respostas e sempre achávamos a mesma, que tudo se pagaria com publicidade... Pois sim, na época os maiores provedores de acesso (UOL e ZAZ) já dispunham de um setor publicitário gigantesco, e mesmo assim, essa parte pagava apenas 10% dos custos gerais, logo, essa resposta não fazia sentido. Havia aí um pulo do gato que só sacamos quando um dia entrou na nossa empresa americanos (mal vestidos), falando com um sotaque Texano terrível. Após dois dias do acontecimento, nosso chefe, antigo sócio da empresa, se despedia de nós. Ele havia vendido a empresa por um valor absurdo, e foi-se de mala e cuia pro Caribe. Essa cena nunca saiu da minha cabeça.
Após todo tumulto da venda, ficamos sabendo a verdade. O Brasil naquela época só tinha uma empresa de telefonia, a Embratel. Quando entrou no congresso a lei que permitiria operadoras estrangeiras de atuar em solo nacional, os investidores viram aí uma mina de ouro. Eles começaram a fazer investimentos exorbitantes afim de aplicar um verdadeiro golpe nas operadoras, quando essas surgissem. Caso não tenhas entendido ainda, eles estavam tentando reunir o máximo de clientes possíveis, para depois vender os impulsos telefônicos às operadoras, que não teriam outra escolha, se não comprar pelo triplo, ou quádruplo do preço... entendido agora ? Pois então... aquela história de publicidade, esquece, balela... Após alguns dias, nós, sentados nas mesmas mesas e cadeiras, trabalhávamos agora para uma tal de IFX International...A pronuncia era mais ou menos assim, iéféx internétional... Na época eu achei o máximo... Bom, a primeira atitude da empresa, advinhe ? Montar um provedor gratuito chamado Tutopia. No fundo, nada mudou conosco, a não ser o detalhe que não cobrávamos mais... parecia mágico, tão mágico quanto desastroso.
Os gringos certamente não conheciam nosso país, e não contavam que em 11 meses de projeto, ele não tinha sido nem votado ainda. E com toda essa demora, muitos investidores não estavam mais conseguindo bancar os altos custos que toda essa estrutura requeria, isso devido a todas terem cometido o mesmo erro, fizeram investimentos super dimensionados para nossa realidade. As únicas que ainda estavam agüentando, foram as que surgiram mais tardiamente. Mas simplesmente não havia usuários suficientes pra tanto provedor, tinha até provedor Católico na jogada ! Sim, até a igreja... (www.catolico.com.br)
O implacável tempo (ou Congresso ?) passou, e alguns foram caindo, como a Super11 e Br-Free, que tiveram suas portas fechadas da noite pro dia. Seus funcionários apareciam desconcertados nos jornais.
Alguns outros estavam na mira do tempo, quando, misteriosamente, o projeto de lei foi votado em tempo recorde, dez dias... Quando vi no Jornal Nacional, fiquei pensando o que Teria motivado tantos senadores e deputados a comparecer em massa nas votações... mas enfim...No final da história, só alguns gigantes sobreviveram, entre elas, a IG. E quem sobreviveu ao temporal, realmente encheu os bolsos. Infelizmente, não foi o caso da IFX, fomos todos mandados pra rua sem maiores explicações, e deixado em Porto Alegre apenas uma sede operacional.
Bom, analisando tudo isso consegue se entender porque o Brasil é um dos países que mais usam internet no mundo, desbancando países europeus, e até mesmo o Japão.
É isso que muitos estrangeiros não entendem, entre eles o criador da Orkut (cuja capital mundial é Porto Alegre). Eles ainda se surpreenderam com tamanha dimensão de brasileiros na rede mundial, que é explicada pela gigante inclusao digital gerada pela tentativa de golpe deles...

Meu dia inútil de hoje... (texto 23)

Cheguei em casa exausto, meio bêbado e de bem com à vida. Foi uma tarde e tanto. Sai sem pretensão alguma apenas com um livro e uma garrafa de vinho na mochila. Lá chegando, acabei encontrando velhos amigos à sombra de uma árvore. Amigos daqueles que a conversa flui vivamente, e parece não querer terminar nunca. Ficamos conversando até as 10h da noite. O tempo definitivamente voou. Decidi então ir para casa.
Chegando, atirei a mochila na sala e fui pro banheiro, afim de um banho pra tirar o cansaço acumulado das juntas. Vou te dizer uma coisa, um banho quente depois da bebedeira faz a gente renascer.
Entrei no box e abri o chuveiro, após alguns choques habituais pra regular, a água estava no ponto. Ou quase. Confesso que meu chuveiro dá mais choque do que esquenta.
Joguei água no rosto para reanimar, administrando a pouca água quente que caia. Ainda estava tentando achar um tubo de shampoo que contivesse alguma coisa dentro, quando estourou a resistência do chuveiro. Esquivei-me da água gelada e pensei: Justo, muito justo. Já estava com muita sorte para um dia só.
Saio do box e vejo que, como todo dia, esqueci a toalha secando lá fora. Sai molhando os corredores. Quando abro a porta da varanda, quase sou levado pela ventania típica de verão. Resisto e vou tremendo pegar a maldita toalha. Enquanto caminho, ou tento, vejo que um colega meu, das antigas, está lá embaixo, queimando uma ponta na esquina com amigos. Lembrei então que ele havia me concedido um lugar no seu apartamento da praia, e que eu estava disposto a pegar. Pensei em gritar, para avisa-lo e não ter que descer lá embaixo depois, mas completamente nu, achei que poderia haver um mal entendido. Peguei a toalha e entrei.
Me secando fui na cozinha esquentar um leite, e pegar algumas coisas pra comer. Abri os armários... Sem muita opção. Apenas Miojo, bolachas água e sal, e farinha láctea, que eu e as baratas já deixamos de comer faz alguns anos. Por falar nisso, até elas já se foram. Peguei o miojo, o leite, e fiz um prato rápido.
Enfiei tudo numa bandeja e rumei pro quarto assistir um pouco de televisão.
-Oi !
Pratos copos e talheres voam pelos ares.
-Porra mulher ! Tu tá querendo me matar ?
-Tava sem nada pra fazer em casa...
Tento colocar o coração no lugar...
-A quanto tempo tu tá ai ?
-Não importa. Eu vi que tu passou a noite e a tarde inteira fora. Revirei tuas coisas na mochila e vi que tem três garrafas de vinho vazias. Com quem tu tá saindo ?
Valha-me Deus.
-Não estou saindo com ninguém, apenas sai pra beber com amigos.
-Tu não me engana Alexandre. Eu tenho instinto pra isso. Instinto feminino. Tu tá me chifrando !
-Se eu tivesse sexo com todas as mulheres que tu desconfia, não precisaria mais fuder pelo resto da vida...
-Não sei, não sei. Tem coisa aí... TEM COISA !
-Faz assim, meu buraquinho querido de paixão, me ajuda a juntar as coisas e vamos pro quarto.
Pegamos as coisas e deitamos na cama. Comecei a comer .
-Olha só, nós temos que conversar...
-Seguinte, neste exato momento, não estou muito afim de paranóias ok ? Estou numa ressaca dos diabos e morto de fome, depois a gente conversa. Ponto final.
-Sei...
Ela me abraça carinhosamente, e em um momento de distração, pega o meu celular, como quem não quer nada. Abre e me fita com os olhos parecendo questionar: Nervoso ?
Continuo comendo, e ela continua ali, revirando o celular. Não demorou duas garfadas e veio a pergunta
-Quem é essa Vanessa ?
-Vanessa ? Não conheço ninguém com esse nome.
-Hmmm... Sei...
-Que foi ?
-Nada, só testando...
Sei como essas coisas terminam. Engoli o resto da comida, e resolvi aproveitar pra avisar o cara à respeito da praia, esteja onde ele estivesse. Catei meus chinelos e a minha bermuda, que uso de pijama.
-Tenho que ir, já volto, beijos !
-Vai fazer o que ?
-Ainda nao sei.
-Vai aonde ?
-Também não sei, mas não demoro, quinze minutos.
Desço as escadas e atravesso a rua. O cara ainda esta lá, com dois amigos. Um deles, um negão vestindo uma jaqueta de couro, uma camisa escrito Legalize It, e uma toca... Não consigo imaginar algo mais atrativo pra polícia que aquilo, mas enfim...
-Olha só quem ta aí. Grande Printer, como tu tá ? Vai "nums" pega ?
-Tu sabe que não sou disso, tipo, só queria falar contigo à respeito da praia.
Subitamente, seus rostos se tomam de pavor. Fico sem entender até olhar pra traz e ver uma Blazer da Polícia Civil, que parou em cima da calçada. De dentro descem três brigadianos. Um deles, bigogudo e gorduchinho, parece esbaldar-se com a cena. Por mais que se veja, deve ser sempre divertido, ao menos pra eles...
-Mão na parede !!
Tentei explicar
-Olha só, eu não tenho nada a ver com isso, eu nem fu...
-CALA A BOCA ! Mão na parede !
-Cara, eu moro aqui em cima
-Deixa as "explicação" pro delegado, MÃO NA PAREDE !
Achei melhor ficar quieto.
O policial me pôs na parede, pôs não, me atirou. Passou a mão entre minhas pernas e me jogou pro canto. Estando só de bermuda e chinelos, não tinha muito o que revistar. Foi pro próximo, o negão de toca e camisa Legalize It, bem conveniente pro momento.
-Vai tirando as coisas dos bolsos...
Quando ele começou a tirar, parecia show de mágica. Esmurrugador, sedas, isqueiros, correntes, zipos ou alguma merda dessas, e um monte de coisas feitas de bambus. Não acabava mais. Fiquei olhando aquelas tralhas, ele fazia até o impensável com bambu. Sendo um talento ou não, o policial chegou a cansar, se escorando na parede. Quando parecia terminado, o brigadiano olhou, colocou algumas coisas dentro de um saco plástico e questionou:
-Tá negão, tu vai querer me convencer que com tudo isso tu não tem nada de droga?
Não respondeu.
Então o policial tirou a jaqueta e começou a revistar. Tirou uma lasca de maconha de proporções surpreendentes. Não só pelo tamanho em sí, mas de ainda ter alguma coisa naqueles bolsos. Nesse momento uma coisa ficou evidente à todos, estávamos mais que fudidos. Um deles, que ainda não havia sido revistado começou a gritar.
-Porra negão, tu vai fumar um beck com um pau de maconha desse tamanho na cintura ? Nem guri faz isso ! Tamo tudo fudido agora, e por tua causa !
O guarda interrompeu e mandou todos pra viatura. Não me contive:
-Cara, eu to de pijama e chinelo, eu vou ir pra delegacia assim ?
Eu te arranjo uma pantufa... AGORA ENTRA !!!
-Desculpa, com todo o respeito à sua profissão, sei que tu tá fazendo a tua obrigação e até admiro o trabalho de vocês, mas...
-Que bom, AGORA ENTRA !!!
-Só me escuta um segundo !
Em desespero peguei o controle remoto da garagem, que abriu. Com isso o guarda parou para me escutar. Falei a minha história, os outros concordaram e ele me dispensou. Quando saí um deles gritou:
-Cara, liga pra minha mãe, avisa que eu to na nona, ela sabe onde é !
Pro diabo ! Vou ir pra casa dormir.
Cheguei em casa. O suor gélido da situação ainda escorria pelas costas.
-Oi, tu demorou, que foi fazer ?
-Fui numa revista da Polícia, pra relaxar...
-Hein ? Como assim ?
-Nada, esquece...
-Conseguiu o que queria pelo menos ?
-De certa forma. Dá o telefone... Deixe-me ver.... Marcelo.
-Alô ?
-Oi, a mãe do Marcelo se encontra ?
-Eu mesmo.
-Ele pediu pra avisar que tá na nona delegacia, te esperando
-Como assim ?
-Também não sei, liga pro celular dele.
Tomei outro banho, gelado. Peguei a toalha na varanda me sequei e fui dormir.

Terça-feira, Dezembro 21, 2004

Mulheres na minha vida, o princípio

1986, chego na carteira e cumprimento...
-Oi !
-Oi...
-Empresta a canetinha azul ?
-Pega
-Que é isso que você tá desenhando ?
-Uma galinha
-Verde ?

-Eu nunca vi uma galinha verde
-Eu já
-Sério ?
-Não cheguei a ver , mas vi o ovo dela
-?!?!?
-É, o ovo dela era verde !
-Que gozado. Nunca vi as galinhas botarem ovos verdes
-Tu nunca viu aqueles ovinhos coloridos ? Rosa, verde, azul, alguns com desenhos ?
-.... não
-Nunca ganhou de páscoa ?
-Ahh, já. Mas eu jurava que as pessoas pintavam eles
-Que nada.
-Mas as galinhas lá do sítio, da árvore de galinha, só botam ovos amarelos e marrons
-Árvore de galinha ?
-Não é bem uma árvore, é um arbusto
-Arbusto de galinha ?
-É. É um arbusto pequeno, onde as galinhas entram pra dormir. É bem engraçado chegar lá e sacudir o arbusto, sai galinha pra todo lado ! Mas o seu Oswaldo não gosta.
-E tu nunca viu elas botarem ovos coloridos ?
-Não
-Elas devem por só na páscoa, por isso
-hmm...
-Como é o rabo das galinhas ?
-O rabo...? Hmmm... é pra cima, assim oh
Pega a canetinha da mão dela e desenha...
-Tem certeza ?
-As galinhas que eu conheço são assim
-Fico estranho...
-Acho que é o verde que tá estranho
-E tu, que tá desenhando ?
-Uma árvore
-Deixa eu ver. Fico legal ! Você desenha bem, queria desenhar assim
-É fácil, se quiser te ensino
Atenção turma, terminou a aula, entreguem seus trabalhos e bom fim de semana !
Penso um minuto, e dou meu desenho pra ela
-Fica com o meu, se quiser conversar tem meu telefone aí
Ela para, fica olhando, dá uma risada da minha cara e vai embora.
E assim, tudo começou...

Terça-feira, Dezembro 14, 2004

O tronco...

Estes dias revirando algumas coisas antigas aqui no micro, achei este texto. Eu lembro que a minha psicóloga sempre achava sentido em textos assim, por mais sutil que fosse. Bom, livre reflexão.

Um pedaço de madeira no meio da sala. Um pedaço de um tronco, que um dia já fora uma árvore esplendorosa, oferecendo abrigo do sol. Mas o passado não importa; ele agora era este pedaço de tronco. Era simples, muito simples, a ponto de ser rústico.

Servia por vezes de assento, ou de peso para segurar a porta, ou apoio para alguma criança que ainda engatinhava começar a se levantar. Numa destas, o tronco foi derrubado e a criança conseguiu se manter em pé, de forma que todos ficassem exultantes com o êxito do pequeno infante, não notando que o tronco rolava pela porta afora. Por que deveria ser notado? Era apenas um tronco. Ninguém nem sabia como ele foi parar ali ou quem o trouxera.

O que se seguiu foi que por alguns dias se sentiu falta daquele tronco na sala. Não porque era uma peça importante na decoração ou porque sua função era imprescindível à casa. Era, sim, porque era algo que estava o tempo todo ali, e de repente não estava mais. Todos estavam acostumados a ver o tronco ali, inútil e inerte.

A falta que se sente não é real, é só um resquício de um costume, um fantasma que vai se esvair em pouco tempo. A falta não é real.

Quem souber o autor, e1/2-me

Segunda-feira, Dezembro 13, 2004

Abençoada morte...

Abençoada seja a morte aos pobres de espírito e aos que procuram reviver em comentários o que nunca tiveram coragem de ser, ou sequer cogitar. Deus louvado seja este que envia seus filhos à terra para provar da merda que são feitos e, sem jamais suportar ou reter o pranto, evoluir até que chegue a Morte, bondosa, para escolher quem já sofreu demais e pôde aprender... E eis então o fim... Amável fim.

Quem souber o autor, e1/2-me

Domingo, Dezembro 12, 2004

Sonhando e pensando... (Parte 43)

-Olá menino perdido
-Olá pessoa de meus sonhos... Tempo não ?
-Apenas para dar-te um oi
-Hmmm, pensei que tinhas vindo para responder-me alguma dúvida, como de costume...
-Na verdade, venho aqui para que tenhas as dúvidas corretas
-Sei.. Sabe, tu tem um jeito de responder sem responder que impressiona. Um tipo especial de responder, um responder que nos mostra claramente que a resposta é algo por traz de alguma coisa planejada, arquitetada, so que respondido de uma maneira ao qual não conseguimos nem pensar,quanto mais perguntar, o que seja. Tu não cansa de responder sempre assim ?
-Não
-Entendo...
(silêncio...)
-Sabe, eu tenho duas dúvidas hoje que me afligem, e muito, responderias ?
-A tua aflição me trouxe aqui
-Hmm. Entrei numa paranóia sobre Deus, sobre a sua onisciência e sabedoria entre presente/passado/futuro, isso é verdade ?
-Onisciência e sabedoria são apenas duas de suas muitas qualidades
-Ok, bom, só para preparar terreno para a próxima pergunta, é verdade dizer que o velho testamento foi inteiramente escrito por Deus ?
-Sim
-Nossa, sério isso é um choque pra mim... Apesar de ser cristão sempre confiei que ele havia sido escrito por humanos... Se isso é correto, é correto dizer também que o Deus descrito no velho testamento é um Deus que julga com uma mão de ferro...
-Deus acima de tudo é justo.
-Fato, por isso mesmo me dá medo... Mas enfim, pode então, um ser humano normal, com a visão mais limitada que existe, mudar a opinião de Deus ?
-O fato assim descrito, se necessário, pode.
-Não entendi...
-A conversa entre Deus e Moisés, da forma como foi descrita, deixou ciente para o seu povo, que Moisés nao apenas servia para Deus, mas também com ele trabalhava para o destino de seu povo traçar, a ciência desse pensamento mudou o comportamento de todos, aceitando sem restrições, o que dele era imposto, pois Moisés era alguém a ser muito respeitado. Isso tornou-se necessário em virtude das suas próprias atitudes...
-Até faz sentido, mas difícil de se imaginar não ?
-Aos seus olhos sim.
-Pode responder-me a segunda ?
-A palavra imposta* aplica-se as atitudes do homem observado, que não satisfaziam à Deus naquele presente momento. Tal foi a gravidade, que deste modo houve de ser descrito. E a você, homem do presente, aprenda que o aprendizado da vida, cabe à vida, o aprendizado da morte,cabe à própria morte, não deveis pensar sobre algo que não está em tempo de aprender, atenha-se a sua melhoria nessa vida, pois uma vida dedicada à morte em nada terá valor...

* Referência as palavras de que Deus haveria se arrependido de criar o homem

OBS.: A veracidade ou pensamento de tais textos não deverão ser levados a sérios, pois partem única e exclusivamente da minha imaginação

Sexta-feira, Dezembro 10, 2004

Negação

Incompreensão me tomou por súbito
Da negação fiz minha única esperança
Tento insistentemente negar-me, de joelhos, sob meu nome
Conto o tempo no desfazer da minha carne
Contemplo incrédulo a terra desfazer minha única referência de vida, selado em uma caixa ornamentada
O vento gélido traz chuva e algumas flores aos meus pés, como que querendo alertar-me, tampar minha visão, porem nem a face me toca
Nem o ar frio do inverno, nem as torrenciais chuvas de verão
Nada mais é capaz, quanto mais desviar meu fixo e incrédulo olhar
Até que meu último fio de cabelo se desfaça, não abandonarei o meu corpo

Quinta-feira, Dezembro 09, 2004

Freud - Além da alma

Assistam este filme ! Muito bom, muito bom...
Com direção de John Huston, e Montgomery Clift, Susannah York e Larry Parks de elenco, é um filme acadêmico, inteligente e instigante, que nos permite uma melhor compreensão das teorias freudianas sobre o funcionamento do Inconsciente humano e como o pensamento psicanalítico irrompeu na sociedade vienense e depois no mundo. Um filme tão genial quanto o legado de Sigmund Freud
Muito bom, muito bom !

Terça-feira, Dezembro 07, 2004

Livre arbítrio...

O livre arbítrio, tanto desejado pelo homem, ou por Deus imposto, quem sabe um dia saibamos ? Seria, conforme apregoam, a escolha entre o céu e o inferno ? Isso seria uma escolha a ser feita ?
Se pegarmos pelo simples sinônimo da palavra, que seria "livre escolha", existiria escolha entre a maestria perfeita de Deus, e o temor, ranger de dentes e sofrimento, humanamente compartilhado com anjos decaídos no "inferno dos infernos" ? Isso não é uma escolha, escolha parte de elementos do tipo viajar ou ficar em casa, ler um livro ou ver televisão, mas não entre céu e inferno, isso não nos é escolhido, e sim, coagidos pela linearidade da melhor sobrevivência... A verdade é que não temos esta escolha, logo, não temos livre arbítrio. Embora acredite, por temor, nas descrições bíblicas, ainda não vejo sentido no "céu e inferno eternos", quanto mais ele ser definido por uma única vivência, ou escolha, feita neste injusto planeta terra... Pense comigo, suponhamos que Hitler, este ser, que foi criado a imagem e semelhança de Deus, ao final da guerra, momentos antes da sua morte, tenha se arrependido, prostrado de joelhos, pedido perdão e aceitado jesus como seu único salvador, que situação teríamos ? Simples, milhões de pessoas "regozijando" das chamas do inferno, observando seu líder entrar pelas portas do céu através da lei da redenção divina... Situação difícil ? Pela bíblia é um fato, Hitler era católico e tornou-se cristão devoto, e ao final da guerra, arrependeu-se de ter mergulhado a Alemanha e o mundo nesta crise. Continuando, Hitler, ou Füher para os mais chegados, um ser humano como qualquer outro, fez de Lúcifer uma simples historinha, pois os demônios reais, ao qual temos de enfrentar, temer e lutar, são de carne e osso, e por vezes, podem estar do nosso lado. Mas mesmo assim temos pessoas que temem mais o "diabo" estereotipado da bíblia, que nunca nos foi apresentado, do que do próprio ser humano em sí. Esta exemplificação toda, é apenas para mostrar porque tenho dificuldades de aceitar a bíblia na sua forma literal... Penso que talvez essas descrições fossem necessárias, para que o próprio homem não sucumbisse sua própria espécie, a existência do temor por uma punição eterna.

Segunda-feira, Dezembro 06, 2004

Pensamentos sobre Deus

Alguns pensamentos sobre Deus, livre reflexão...

"Se Deus não sabe que existe o mal Ele não é 'Onisciente'. Se Deus sabe que existe o mal, mas não pode evitá-lo, ele não é 'Onipotente'. Se Deus sabe que existe o mal, pode evitá-lo, mas decide não fazê-lo Ele não é 'Onibondoso'".Daniel Haddad.

"Deus e o Diabo oferecem a mesma mercadoria: a felicidade. A diferença é que Deus cobra adiantado".Anônimo.

"O cristão comum é uma figura deplorável, um ser que não sabe contar até três, e que, justamente por sua incapacidade mental, não mereceria ser punido tão duramente quanto promete o cristianismo".Nietzsche. (Terminei de ler o seu livro Ecce Homo, fiquei horas e horas pensando, acho que minha primeira pergunta pós mortem vai ser, onde Nietzsche foi parar ?)

"Encontramos muitos livros... e já que eles continham apenas superstições e falsidades do Diabo nós queimamos todos eles".Bispo Católico Diego de Landa, após queimar livros inestimáveis da história e da ciência Maia, Julho de 1952.

"Afirmar que a terra gira em torno do sol é tão errôneo quanto afirmar que Jesus não nasceu de uma virgem".Cardeal Bellarmino (1615, durante o julgamento de Galileu).

"Sou ateu apenas porque Deus não existe. Se existisse e fosse como dizem as religiões, eu o odiaria!!!" Mago do Verbo.

"Quando o primeiro espertalhão encontrou o primeiro imbecil, nasceu o primeiro deus".Millôr Fernandes.

"Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível".Albert Einstein.

"Ou dá ou desce".Bispo Edir Macedo. <- esta em particular eu acho FANTÁSTICA ! Publicidade nota 10 !

"Se Deus existe, a ciência vai desvendá-lo".Perrone.

"Não sinto falta nenhuma de deus, mas com certeza sinto falta do Papai Noel!".Courtney Love

Domingo, Dezembro 05, 2004

Sobre com quem andamos...

Não sei se sou o único a notar, mas uma pessoa que é extremamente afetuosa e carinhosa com você, mas grosseira com o garçom, dificilmente é uma boa pessoa...

Sábado, Dezembro 04, 2004

Nudez da alma

Alma desnuda, não chores
Levanta-te
Esta roupa não lhe serve mais
Sua alma cresceu
Novas roupas irá de trajar
Uma roupa cuja beleza demonstra sua nova alma
Deixe a natureza agir
Deixe a natureza levar-te
Deixe a natureza desfazer suas velhas roupas
E, enquanto isso
Não chores...

Quinta-feira, Dezembro 02, 2004

Momento epifania...

Mostre a eternidade da alma frente a face do homem, e terás ali, um homem com ambições introspectivas...

Pensamento que tive ao enfrentar uma enorme perda material...

Sexta-feira, Janeiro 02, 2004

O perigo que a Google nos trás...

Hoje estava folheando o jornal, aqui no serviço, quando vi que a Google iria gastar 80 milhões de dólares em sua nova sede, no Brasil. Ao comentar o fato, ficamos todos espantados com o valor do investimento, e eu, ao continuar lendo, me deparei com uma coisa no mínimo, curiosa.
Notei que esta empresa já nasceu grande, e como tudo nesse ramo, da noite pro dia.
Larguei o jornal, e fui tentar procurar os responsáveis pela sua criação e investimento, descobri apenas dois nomes, e que ela teria surgido com um capital inicial aproximado de 25 milhões de dólares, em 1998.
Isso fazia sentido, pois nessa época, vivíamos uma verdadeira febre de investimentos on-line, haviam pessoas comprando domínios como a www.busniess.com por 1 bilhão de dólares... acredite ou não, é verdade. Logo, era bem possível que eles tivessem conseguido o dinheiro dessa forma, porém, não foi.
Apesar da facilidade da época em se conseguir investimentos, quem financiou e construiu a sede da Google, não foram investidores privados, e sim, o próprio governo americano. Isso explica porque a Google não tem anunciantes nem propagandas.
Fiquei intrigado pensando qual seria o interesse do governo em patrocinar uma coisa dessas, e a medida que pesquisava, as coisas ficavam ainda mais confusas. Dejavour ?
Tentando descobrir o tamanho da sua estrutura, vi que essa informação é mantida sob sigilo, na sua sede em Mountain View, Califórnia. Como não teria essa informação, fiz um teste.
Criei uma página com uma palavra inexistente no nosso vocabulário, e coloquei no ar. Todos os dias, eu digitava a palavra no Google, e descobri que os servidores dela demoraram apenas 3 dias para encontrar. Bom, com isso já era possível fazer alguns cálculos.
Tendo em vista que hoje temos 3 bilhões de páginas, a Google teria de ter não apenas uma grande estrutura, ou uma estrutura formada com auxílio de PC´s pessoais, como alguns comentam.. não não, ela teria que ser formada de (preste atenção agora) * milhares * de super servidores, algo capaz de analisar, armazenar, catalogar e arquivar 100mil páginas por segundo. E se ainda considerar que a Google revisa todos os link´s, duas ou três vezes, já fica meio estranho acreditar que ela tenha conseguido montar algo assim, com apenas 25 milhões de dólares. Qualquer pessoa que já tenha trabalhado com provedores, consegue confirmar, pois se considerarmos que antes dela surgir, com seus mega servidores, ela executava apenas Download de informações (para isso, foi contratato o maior link da história, capaz de paralisar a internet no mundo inteiro se ela quisesse), só aí, o custo inicial, mesmo com contratos específicos pela GlobalOne (que visa o pagamento de download com pós upload), já giraria garantido na casa dos 15 milhões. Ou seja, fica difícil acreditar naquela historinha de dois malucos que resolveram abrir um site, e bum ! Mágica ! Convenhamos...
Mas o leitor deve estar se perguntando, e daí ? Qual o problema disso ?
Bom, com a internet sendo um requisito cada vez mais indispensável a cada dia, e os novos servidores que estão por vir, até 200x mais rápido que os de hoje, a Google irá se torna um “olho onisciente”, que tudo vê. Cada vez mais, as pessoas estarão expostas, sendo impossível resguardar-se. Para compreender melhor, darei um exemplo:
Eu era responsável por um servidor de mIRC (famoso Printer), na empresa onde trabalhava , e um belo dia, inexplicavelmente, minha senha foi descoberta e mais de cinco servidores foram derrubados. O que se sucedeu foi um completo caos na empresa, e eu, custei semanas para descobrir como alguém tinha conseguido este feito, tendo em vista que a minha senha possuia 15 caracteres alternados entre sí.
A resposta veio em um dia que digitei meu próprio nome no Google, e apareceu os torneios que havia participado, os dois concursos públicos que prestei, ao qual trabalho hoje, o colégio onde estudei, além do blog de uma ex-namorada minha.
No blog, ela falava do meu fascínio por jogos, e das minhas horas gastas num jogo em um servidor, que eu mesmo havia criado. Tendo essas informações, o cracker começou a pesquisar e achou o tal servidor, ao qual executava apenas um Linux Caldeiras sem muita proteção.
Ele pegou o user e senha, e viu que funcionava também em uma outra máquina, que servia apenas para tocar um alarme, conseguindo mais um usuário e senha, que deu acesso a outra, e outra, até chegar nos servidores principais.
Bom, a culpa disso não deixa de ser exclusivamente minha, mas, como praticamente todo ataque depende de uma investigação, logo, será necessário cinco vezes mais precaução com o Google, pois ela não encontra apenas páginas pessoais, ele encontra também servidores clandestinos, informações sigilosas, enfim, tudo.
Se você digitar chess.zip (ou qualquer nome de arquivo), você vai encontrar dezenas de servidores clandestinos, mantidos em grandes empresas, com jogos, aplicativos, tudo em segredo. E se você digitar o nome de um arquivo, de um vídeo por exemplo que está rolando na internet, vocês vão descobrir diversos outros links em outros servidores. Tendo em vista que o nome do arquivo é uma impressão digital, você consegue ver a fonte de tudo.
Em no máximo cinco anos, todos nós estaremos muito mais expostos. Você não conseguirá ir a padaria sem que se saiba. Com tudo isso na cabeça começei a entender porque esse projeto foi criado pelo governo.
Com um mecanismo destes nas mãos, tornará possível para os EUA investigar qualquer pessoa, ver o que ela está fazendo, onde e como. E se ainda levarmos em consideração, que até a mídia hoje procura suas informações na rede mundial, logo, teremos apenas um censurador mundial, os EUA...