Se tem uma coisa que eu omito das pessoas, é a que eu trabalho com informática. Não por medo de ser tachado de nerd ou algo do gênero, mas pelo simples fato de que, sempre, em algum lugar, alguém sempre necessita de uma ajuda. Já não foi uma nem duas vezes, que eu cheguei em casa exausto, e alguém, um vizinho, um tio, e até mesmo um completo desconhecido, vem pedir meu auxílio. Sempre ajudo no que posso, pois sinceramente, me considero tão medíocre na informática como no que escrevo. Por isso, nunca cobrei nada. Mas sempre me retribuem os favores, de alguma forma, como hoje.
Eu cheguei em casa, e antes de entrar na porta, meu vizinho veio, esbaforindo um cigarro e falando freneticamente no celular. Entre as falas ele ainda conseguia achar uma pausa para falar comigo.
-Olha só, tenho uma boa pra nós... O QUÊ ? ISSO, SE PEGAR DEZ FILMES É VINTE REAIS, ISSO ! Eu vou fazer uma pescaria nas ilhas, e tu vai vir comigo. ENTREGAR AONDE ? AH.. CINCO REAIS DE TELE ! Fica por minha conta.
Fiquei olhando a cena. Tentava ainda entender onde eu me encaixava no contexto de mar, barco, e pescaria. Seguiu-se mais alguns gritos pelos corredores, e ele desligou. Matou o cigarro e pediu para entrar no apartamento dele, para conversarmos. Entrei e fomos para o quarto, onde ele me mostrava fotos e mapas do Guaíba, encenando uma atmosfera muito promissora, porém, isso durou até ele começar a falar dos trâmites necessários.
-Olha só, tu só tem o Uno ?
-Sim, porquê ?
-Eu não tenho reboque pro barco. Será que dá pra botar o barco em cima do Uno ?
-O quê ? Mas que tamanho é esse barco ?
-Ele tem seis metros, da uma olhada nas fotos.
Pego a foto.
-Cara, seis metros só um carro grande. E muito grande...
-Pois é. Já sei, perai.
Pega o telefone, dá uma escarrada à distância na lixeira, e acende outro cigarro. Quando atendem do outro lado ele se levanta, vai pra janela esbaforindo fumaça e começa a gritar de novo.
-OI ! E AI ? SOU EU. ME DIZ UMA COISA, TU AINDA TEM AQUELA CARAVAN ? É ? TÁ ALIENADA ? MAS TU TÁ COM ELA ?
E prossegue. Na conversa começo a entender porquê um dia ele fora o melhor vendedor de seguros do Rio Grande do Sul. Com um papo manso ele convenceu o cara, a emprestar uma Caravan, alienada, sem documentos, sem IPVA pago desde noventa e oito, e mais de mil reais em multa, à fazer uma viagem com um barco de seis metros amarrado em cima.
Fiquei imaginando como ele iria passar pela Polícia Rodoviária Federal, quando ele desligou.
-Cara, arrumei um carro pra nós buscarmos o barco. Vamos lá !
-No cara ?
-Não, antes vou no Renato, nosso vizinho.
-Ele vai ir junto na pescaria ?
-Não não, ele só vai me emprestar um alicate de cortar corrente.
-Ué ? Pra quê ?
-Os filhas das putas da marina acorrentaram o meu barco.
-Por quê ?
-Ahh, era o meu tio que pagava a marina, só que quando ele morreu, eu não paguei e agora eles estão me cobrando 12 meses de mensalidade atrasadas. Só que isso da mais de mil reais e eles não querem negociar. Mas eles vão se dar mal comigo, eu vou tirar meu barco de lá hoje nem que seja a força.
Então ele se levanta, bota o telefone no lugar, e tira de cima do armário uma pistola 380. Olha pra mim e comenta.
-Só por garantia. Não vou usar
-Sei... Tipo... Se importa se eu não for junto ? É que não sou chegado à confusões
-Nah, nem te grila, não vai dar confusão nenhuma. Isso eu levo só pra último caso.
-Sei. Vamos fazer assim, eu fico organizando as coisas aqui, rede, bateria, e essas coisas necessárias, pode ser ?
-Mas é que eu preciso de carona pra ir lá.
-Toma, pega a chave ! Tipo, pra ligar, você tem que empurrar com força a chave para dentro do miolo, se não a chave não gira, e depois, cuida com a embreagem, tá no talo, então tem que engatar meio sincronizado as marchas. A segunda esquece, não entra de jeito nenhum.
-Tem alarme ?
-E precisa ? Ninguém consegue dirigir aquela lata velha.
-Tá, vou lá !
Toca o celular, ele atende, mais uma venda de CD´s piratas. Então ele sai gritando porta à fora dando preços e demais.
Fiquei olhando o restante das fotos e brincando com a cadelinha dele, que era uma mistura de vira lata com Fox. Um dos cachorros mais simpáticos que já conheci. Comecei a mexer nas coisas que ele havia separado, e notei que tinha um volante. Fiquei pensando que raios um volante fazia junto do material de pesca. Quando tirei, entendi. Ele havia improvisado um volante para por no barco, para não ter que ficar lá atrás, junto do motor. Bem rústico é verdade, mas funcional. Ou ao menos, parecia.
Deu algumas horas e toca o interfone. Fui atender, era ele.
-Cara, eu esqueci a chave da maleta do barco, me traz ela, tá em cima da mesa dos computadores.
Procurei e desci. Quando cheguei lá embaixo, vi a tal "Caravan". Incrível pensar que aquilo ainda andava. Estava sem os dois pára-choques, os pneus já estavam na câmara, sem retrovisor, sem o vidro direito, e todas sinaleiras quebradas. A pintura sugeria que ela tinha sido azul um dia. Dentro, meio quilo de areia de praia.
-Isso ainda anda ?
-O quê ? Tu nem imagina o motor que isso tem ! Anda pra cacete ! Olha só o que eu consegui !
Pegou um alicate que devia ter um metro de tamanho e uns dez quilos. Deu algumas risadas que sempre parecem forçadas, e se mandam pra buscar o barco.
-Daqui a meia hora estamos de volta !
-Falow
Fiquei ali, na rua. Era um domingo de céu claro, bonito. Devia ser umas onze horas. Para quem trabalhara a noite inteira, até que eu estava de bem com sol. Geralmente, eu não o suporto.
Fumei um cigarro, ao som dos pássaros, e quase duas horas depois, vejo algo estranho aproximar-se no horizonte. Eram eles. O carro parecia vir de lado, "carangueijando", com um dos lados quase encostando no chão, devido excesso de peso. O desleixo na maneira de por o barco em cima do carro, pendendo para um dos lados, sugeria que tinham o feito às pressas. Sugeria não, era até meio óbvio. De longe eu já conseguia ouvir as risadas.
Estacionaram na frente do prédio, e começamos a colocar as coisas dentro do carro.
Quando terminamos de colocar o motor, as redes, oitenta, pasme, oitenta litros de gasolina, a Caravan foi ao chão. Parecia carro de magal. Ficamos então na volta, pensando. Ainda tinha o liquinho (um butijão de gás pequeno), e as armas de caça. Mas não sobrara espaço. Então ele foi enfático.
-Seguinte, vai com o liquinho no colo, e as armas eu vou enrolar num saco e jogar em cima do barco.
A idéia não me agradou muito, mas não tinha outra solução.
Entramos no carro e saímos. De dentro do carro eu via a rabeta do barco ir uns três metros à frente, era realmente estranho, mas pelo menos, tampava-me do sol. Devia ser umas três horas da tarde. Pensei se não seria meio arriscado sair em plena luz do dia daquele jeito. Mas eu estava de mero passageiro alí. Ele terminou de enrolar um baseado, acendeu e quando fez a curva, parecia natal. Nunca vi tanta luz vermelha piscando. Era uma blitz da Polícia Rodoviária Federal, na Av. Farrapos, a três quadras de casa. Devido às confusões dos puteiros que ali existem, na noite anterior, eles estavam parando todo mundo, à procura de dois sujeitos. Sei que meu vizinho, ao ver, quase engoliu o baseado. Ele pôs o carro em cima da calçada e, enquanto o guarda caminhava na nossa direção, ele dizia: "Fica frio, fica frio que eu me entendo com eles". Mas sinceramente, estando num carro alienado, sem documentos, ele com a carteira vencida, com armas, redes de pescas ilegais, oitenta litros de gasolina, e eu abraçado num botijão de gás... É hoje que ele dá a bunda.
O guarda se aproximou, olhou para os bancos de tráz viu os oitenta litros de gasolina, olhou pra mim, e comentou:
-Vocês vão explodir um prédio ?
Podia ser engraçado, mas não conseguimos rir. Então meu vizinho desceu do carro, aos gritos, como sempre.
-E ai ? Tudo bom chefe ?
Falou isso como se fosse amigos de longa data.
-Olha só, nós saímos dalí, daquele prédio, nós estamos indo pescar em Itapuã, tu conhece ?
-Sei...
Ele abraçou o guarda, e foi conversando e o levando, para longe do carro. Eu escutava o que ele falava mesmo estando longe. Fiquei pensando, se a lábia dele fizer a gente passar por essa blitz, ele merece o prêmio Nobel !
Passou-se alguns minutos, e vieram os dois, ele, como sempre, sorrindo. Entrou abruptamente no carro, e um dos guardas liberou os cones para retorno. Impossível, não acreditava no que os meus olhos viam !
-Que tu fez ?
-Nada, o cara também é pescador, ele só me liberou para voltarmos pra casa.
-Que bom, acho melhor mesmo desistir dessa idéia. Vou te dizer, nós tivemos é muita sorte!
-Nada que uma boa conversa não resolva, agora sorri e faz cara de paisagem
Acenamos agradecidos e fomos embora
-Olha, não duvido mais nada do poder da tua conversa
-Pssi, já me livrei de situação pior com o Chevettinho
-Pior que isso ? É possível ?
Então ele rumou numa rua alternativa, e foi me contando de outras peripécias. Juro, esse cara poderia escrever um livro ! Andamos mais um tempo, e ele parou na frente de um prédio, meio pombal.
-Um amigo meu vai junto.
Era um amigo dele, do tempo em que eles vendiam seguros de vida. O cara ainda continuava na função. Logo que ele entrou, fomos embora para o cais. Eu fiquei espremido no banco de trás, apenas ouvindo as conversas de canto. Em geral eram lembranças das vendas, que passavam batido pelo meus ouvidos, até que uma pergunta do amigo dele me chamou a atenção.
-Cara, te lembra do Wando ?
-Sim, que tem ?
-To precisando de um gerente pato pra ele
-Pra quê ?
-Ele tem vários terrenos grandes lá pelos lados do Acre. Coisa grande mesmo. Preciso de um gerente pato pra aprovar um empréstimo,e ele se livrar dos terrenos.
Comecei a pensar e entendi. O cara tinha muitos terrenos lá, mas, ele nunca iria achar alguém com dinheiro e disposto a comprar terrenos no meio do nada. Então, era mais fácil ele fingir estar abrindo um negócio, pegar um empréstimo de milhões, colocando os terrenos como garantia do pagamento, e sumir, deixando os terrenos ir a leilão.
-Cara, eu sei um gerente que vai cair nessa. O cara é muito ingênuo, deixa comigo !
E prosseguiram a conversa, trocando idéias de como poderia fazer a maracutaia de forma a ninguém perceber. A conversa se estendeu até o cais, onde interromperam o assunto por momento.
A muito custo, colocamos o barco na água, e após algumas horas arrumando tudo, partimos. Confesso que achei legal a experiência, nunca tinha andado de barco, só veleiro. O barquinho andava realmente muito mais rápido do que eu esperava, para um motor vinte e cinco. Ainda admirava toda a cena, quando o amigo dele pegou uma caixa enorme de isopor.
-Precisamos de cerveja !
-Vamos pro bar flutuante !
-O quê ?
A ventania e o barulho do motor dificultavam a comunicação
-VAMOS PRO BAR FLUTUANTE !
-Ahhh, OK !
O bar flutuante, é um bar, pasme, flutuante ! Fica em frente a usina do gasômetro, que é também, ironicamente, onde desemboca todo esgoto de Porto Alegre. Um Tietê gaúcho.
Chegamos lá, e eu, como ainda não tinha gasto nada, resolvi pagar a cervejada. Peguei o isopor e subi no bar, enchi de cervejas e gelo, e voltei. O enorme peso do isopor dificultava muito meus movimentos entre as mesas, que eu nunca vira tão lotado. Então cheguei com calma na beira, e olhei pro barquinho, que sacudia bastante na maré. Ao pisar no barco, ele se deslocou para fora, e eu comecei a abrir as pernas, fazendo um compasso. Comecei a tremer devido ao peso do isopor, quando meu vizinho se deu conta de puxar o barco de volta, mas era tarde demais...
Queria Deus um dia esquecer esse momento. Cai com isopor e tudo dentro da "água". Muito, mas muito rapidamente, os dois salvaram o isopor. E eu, confesso, não lembro de muita coisa. Apenas de ter atolado os pés numa lama gosmenta. Sim, a merda de toda Porto Alegre acumulada fazia dar pé ali.
Ao ressurgir da água, vi centenas de pessoas rindo. Algumas mulheres ainda se preocupavam, mas de resto, apenas riam. Meu vizinho, que ria até mais do que eles, tentava me puxar de volta. Me escorei no barco, e após me esfolar e cortar um dos pés, voltei. Olhei pra mim mesmo, do joelho para baixo, estava com uma gosma que variava do verde gosmento ao amarelo diarréia. Era muito, muito, MUITO nojento. Os dois me evitavam enquanto eu colocava os pés de volta na "água" para limpa-los. Não consegui muita coisa, era o mesmo que limpar a bunda com saco plástico, só espalhava. Com as pessoas ainda rindo, pedi para que fossemos embora, antes que minha auto-estima atingisse o ápice. Eles riram e nós fomos. Eles ainda acenavam e mandavam beijos para as garotas, e eu, apenas mantinha o olhar fixo no horizonte. Depois dessa, fiquei impegável à qualquer ser num raio de dez kilometros.
Chegamos às ilhas, e lá ficamos dando voltas, o que foi divertido. Achamos lugares bem diferentes. Lembro que em um determinado momento, achamos bem no meio daquele imenso rio, um "baxil", que fazia dar pé. E dessa vez, não era merda. Era um tanto quanto estranho ficar de pé no meio de um rio daquele tamanho, mal enxergávamos a margem. Mijamos, tiramos algumas fotos e fomos embora.
Após algumas horas andando, o rio foi se estreitando, e ele resolveu por em prática a sua engenhoca de Prof. Pardal. Sim, aquela, do volante.
Ficamos a deriva, boiando, enquanto ele revirava as sacolas, até que achou. Retirou e "acoplou" na parte frontal do barco. Nesse momento, como todo projeto, houve a primeira falha. Esquecera dos fios de ligação volante/motor. Inconformado, ficou alguns minutos agourando sua má sorte, até que ligou o motor e rumou para uma dessas casas de beira de rio. Casa não, casebre, era praticamente quatro pedaços de fórmica empilhados. Então ele desceu, e se foi. Passado alguns minutos, voltou com uma corda de varal gitantesca. No momento que eu vi, exclamei em voz alta "Isso não vai dar certo..." O seu amigo, agora meu amigo também, me olhou, e levantou a cerveja. Para ele, tudo era festa.
Ficamos parado observando enquanto meu vizinho passava aquela corda de varal pelas roldanas. Firmou, mexeu o volante para testar, perfeito ! Nem eu acreditara, sua engenhoca estava funcionando. Levado pela alegria do momento, ligou o motor e começou a andar no rio, à toda máquina, fazendo tantos zigue zagues que eu quase caí do barco umas três vezes. A muito custo, com a ventania, acendi um cigarro. Estava feliz novamente. Esquecera o monte de merda que eu havia virado a pouco tempo. Fiz um aceno de comemoração, me voltei para frente, e comecei a emborcar as cervejas uma atrás da outra.
Passado um tempo, estávamos todos meio "altos". Todos não, eu estava virado num gambá.
A partir daí, as cenas passavam pelos meus olhos numa espécie de "Slow motion". Via apenas alguns poucos quadros por segundo. Aquela cerveja toda, frente à um sol de rachar, agravara o efeito do álcool. Lembro que tudo era festa. Aquele barco, a toda velocidade por aqueles rios estreitos, era do caralho. Foi quando apareceu um tronco de madeira enorme boiando à nossa frente. Meu vizinho, desviou do tronco, mas ao voltar, a corda de varal se soltou e nós entramos ilha adentro, a 60km/h, deixando um rastro de poeira.
Devido a bebedeira, eu não saquei o que aconteceu. Senti apenas um forte solavanco, e de repente, só havia árvores e galhos à minha volta. Olhei pra baixo, terra firme. Eu não conseguia entender. Olhei mais na volta, havia um pessoal, nativo da ilha, que me nos olhava com espanto. Olhei pra trás, meu vizinho já havia decido, esclamando alguns palavrões. Então abri mais uma cerveja, sentei no chão e ali fiquei.
Nesse momento tínhamos virado atração para os habitantes locais. Com a ajuda deles, o barco foi posto de volta na água. Como entrei no barco, não lembro. Acho que apenas me atiraram.lá dentro. A partir dai, as coisas ficaram meio embaçadas.
Lembro de ter ficado em terra firme, enquanto eles caçavam, punham as redes, e tudo mais.
Fiquei catando coisas que achava na beira da ilha. Em geral lixo da cidade grande, como latas de refrigerantes, das antigas. Daquelas que tinham um anel grande, de 1985, por aí... Vi também caixas de remédios, e outras coisas bizarras, como um rádio antigo, à valvula, com as teclas escritas em alemão. Fiquei procurando mais lixo quando eles voltaram. Haviam terminado de por as redes na água.
Então um deles começou a improvisar uma churrasqueira, enquanto o outro, cortava as iscas para ser serem usadas na pesca. Em geral minhocas.
Ao terminar de corta-las, no mesmo embalo, pegou os pães e seguiu cortando. Engasguei ao falar.
-Que tu tá fazendo ?
-Cortando os "pão" pra por a lingüiça dentro
-Sem lavar ? Tem uma gosma preta de minhoca na faca
-Minhoca é um bicho limpo, mas tu quer eu lavo
Se levantou e rumou para o rio.
A margem, não sei porquê, tinha uma espuma branca e densa. Falei novamente.
-Pssiu, deixa. Eu pego o ultimo pão
Ele me deu os ombros, fazendo pouco caso e continuou
Em poucos minutos as linguiças estavam estalando no fogo.
Seguiu-se algumas conversas triviais, até elas ficarem prontas. Eles comeram, e eu, confesso, tentei. Acabei comendo somente a lingüiça, pura.
-Vamos lá !
Exclamou um deles.
-Vamos pescar, já deixei tudo pronto.
Entramos no barco e fomos rio acima, novamente. Quando o barco parou, lançaram-se os anzóis na água, e ficamos à espera, de alguma coisa.
Confesso que ficar parado, segurando uma vara de pescar, não estava me agradando muito. Comecei a me coçar, fumar um cigarro, mexer nas coisas atrás de alguma cerveja remanescente, até ser repreendido.
-O bicho grilo, te aquieta aí ! hehehe
Sentei novamente. Comecei a fitar o horizonte entediado, até achar algo estranho. Parecia um monte, ou morro, sei lá. Era preto, e parecia se mexer. Fiquei alguns minutos imaginando que diabos era aquilo até perguntar.
-Oh, pssiu, o que é aquela coisa preta ?
Eles olharam. Meu vizinho ficou pensativo alguns minutos, até afirmar.
-Acho que é um mirante. É, é sim.
-Preto ?
-Não, aquilo são aves. Deve ser uma porção delas
Pegou a pistola e deu um tiro pra cima. De fato, eram aves. Elas levantaram um vôo rasante pela água, nos contornando numa espécie de círculo e acabaram voltando, pousando do mesmo jeito que estavam antes. Não havia jeito, nada se modificava. Tudo ali inspirava o tédio.
Pescamos dois ou três peixes, não lembro, quando o sol começou a se por. Resolvemos voltar, mas antes, pedi para passar no mirante, tirar uma foto.
Ao chegar, às aves levantaram vôo. Dessa vez, não voltaram.
Subi então pelas escadas, seguido do meu vizinho, quando cheguei lá em cima, levado pela emoção da vista, pulei da escada para o mirante. Meus pés atolaram numa gosma branca. Adivinhe... Merda novamente, só que de pássaro. Toneladas de merda. Esclamei um put* que pariu. Meu vizinho, ainda subindo, perguntou o que era
-Nada não, pode vir !
Dei um jeito de ir para a lateral, evitando tudo aquilo. Pelo menos, não fedia. Quando ele subiu, pareceu-me um Dejavour.
-Bah, olha só que vis...
Espatifou os dois pés nas titicas de pássaro.
-PUT* QUE PARIU
-Shhhhhhhhhhhhhhhh !
Interrompi. Fiz um sinal pra baixo.
-Te assenta ai do lado, deixa ele vir.
Não se contendo, gritou lá pra baixo.
-Cara, sobe aqui ! Têm uma vista do caralho !
Ele começou a subir. Meu vizinho me olhou, tentando desesperadamente conter o riso.
Ele subiu, olhou pro horizonte.
-Bah, do caralho, até vou tirar uma foto de vocês dois aí.
-Sobe aqui primeiro !
Nesse momento, nossos sorrisos iam até as orelhas. O sorriso mais sínico que alguém poderia ter, mas ele não desconfiou e pulou.
Quase caí lá de cima de tanto rir. Ele nos xingou e ficamos observando o por do sol. Isso realmente foi legal, valeu a pena.
Começou a ventar forte, provocando marolas na água. Tínhamos de ir, sem dúvida.
Olhei pra baixo, o vento começava a levar o barco. Comentei isso e comecei a descer as escadas.
Meu vizinho, aventureiro como sempre, resolveu pular lá de cima.
-Larga de ser fresco, te atira !
-Eu não, sei lá como isso daqui foi construído, pode ter pontas de ferro ou estrutura lá embaixo.
Não terminei de falar e lá veio ele, de ponta. Pensei, se ele cair numa boa, me atiro também.
A cena que vi, é difícil de explicar. Ele caiu, sumiu na água, e de repente suas pernas surgiram, passando pela cabeça. Muito muito bizarro. Gritei lá de cima.
-TU TÁ BEM ?
Com metade do corpo fora d´água, tentava puxar o ar frenéticamente.
Desci correndo, quando pulei na água, entendi. Devia ter no máximo um metro de profundidade.
-Tu tá bem ?
Não respondeu. Apenas fez um sinal com a mão, para aguardar. Respirava ofegante.
Punha as mãos nas costas constantemente. Depois de um minuto mais ou menos, ele comentou.
-Cara... (longa pausa) ...acho que estalei todos os ossos possíveis...
E tocava com os dedos na bochecha, vermelha. Tinha dado uma joelhada na própria cara.
-...até o cú eu acho.
Emendou.
-Ele está bem !
Gritei para o nosso amigo, que ainda descia com cautela as escadas. Então ele não se aguentou.
-Depois dessa, acho que tu consegue chupar o próprio pau
Segurei o riso, achei impróprio, então só comentei
-Tudo tem um lado positivo, tem gente que paga pra estalar a coluna, tu conseguiu de graça.
Entramos no barco. Meu vizinho ainda estava meio zonzo da queda, cheio de areia na cabeça. Por isso, eu mesmo fui guiando o barco. Chegamos na ilha e eles foram buscar as redes, enquanto eu, arrumava tudo, para voltarmos.
Fiquei arrumando e lembrei do rádio antigo. Vou levar de recordação.
Voltei lá, o rádio estava meio embrenhado no mato. Tirei umas folhas para abrir passagem, quando vi, uma aranha. Toda colorida, e muito, muito grande. Maior que um prato. Aranha sabida por sinal, fez uma teia entre todos os galhos, não escapou um.
Não sei porquê, passou a vontade de levar o rádio.
Voltei e vi eles se aproximando, com a rede e dois bichos estranhos. Era um cascudo, disse ele.
Todo aquele trabalho para pegar dois cascudos.
Entrei no barco e enquanto isso, eles atiravam as coisas pra dentro. Comecei a sentir um forte cheiro de merda outra vez. Não aguentei.
-Não consigo me livrar desse cheiro.
-Ah, não te preocupa, é da rede.
-Como assim ?
-Veio um cagalhão junto com os cascudos.
Olhei pra rede incrédulo. De fato, ela estava com uma mancha suspeita.
-Mas aqui ? Estamos longe pra cacete da costa.
-Eu sei, ele ainda achou que era uma manga podre, e pegou na mão !
Rimos à beça !
-Chega por hoje, vamos pra casa !
Voltamos pro cais. Lá chegando ainda enfrentamos problemas. A bateria da Caravan tinha se ido.
Demoramos pra resolver tudo. Cheguei em casa podre de cansado. Pode-se dizer que foi um domingo e tanto.